
O Governo de Minas Gerais manteve a execução de um contrato de R$ 348 milhões com a empresa Fazer Educação Ltda., efetuando pagamentos milionários, mesmo após ser formalmente alertado sobre suspeitas de corrupção. A informação foi confirmada durante audiência pública da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), no dia 27/05, quando a controladora-geral do Estado, Marcela Dias, foi ouvida na condição de convocada, já que na primeira audiência agendada para apresentar esclarecimentos o governo não compareceu.
O centro do escândalo envolve a compra de livros didáticos por inexigibilidade de licitação (sem concorrência), assinada em 23 de dezembro de 2025 pelo então secretário de Educação, Rossieli Soares – exonerado em meio às denúncias. Os documentos e depoimentos colhidos até agora revelam que o núcleo político do governo Zema/Simões já tinha conhecimento das irregularidades antes mesmo de o contrato ser selado.
Alerta ignorado; contratos mantidos.
A cronologia apresentada pela controladora-geral demonstra que os alertas emitidos pelos próprios órgãos de controle interno foram sucessivamente ignorados enquanto o dinheiro público era escoado:
16 de dezembro de 2025: Um servidor público formalizou a denúncia de irregularidades na CGE (demonstra que o governo já sabia dos riscos sete dias antes da assinatura do contrato).
23 de dezembro de 2025: Ignorando a apuração em curso, a Secretaria de Educação assinou o contrato bilionário.
09 de janeiro de 2026: A CGE entregou o primeiro relatório preliminar de auditoria diretamente ao então secretário-geral do Estado, Marcel Beghini – braço direito da gestão Zema/Simões.
27 de abril de 2026: Quase quatro meses após o primeiro relatório, a CGE emitiu uma segunda nota técnica aprofundando as suspeitas de fraude. Só então o secretário Rossieli Soares foi exonerado.
Novo contrato em meio às investigações
Durante todo esse período, a empresa investigada continuou recebendo repasses. E como se não bastasse o pagamento efetivo de R$ 170 milhões, houve ainda o empenho de outros R$ 49 milhões em um contrato de consórcio derivado – um prejuízo consolidado que, segundo a oposição, poderia ter sido totalmente evitado se o governo não tivesse blindado o negócio.
Oposição cobra medidas emergenciais para interromper pagamentos
A deputada Beatriz Cerqueira (PT), presidenta da Comissão de Educação, fez críticas contundentes à falta de comando e de zelo com o erário por parte da gestão Zema/Simões. Para a parlamentar, o fato de o governo ter em mãos relatórios preliminares de auditoria detalhando as suspeitas e, ainda assim, ter permitido o pagamento de R$ 170 milhões é injustificável.
“Quem faz o controle quando indícios de corrupção são identificados dentro do governo?”, questionou Beatriz, confrontando a controladora-geral, Marcela Dias, sobre a ausência de uma suspensão preventiva imediata do contrato.
A deputada Lohanna (PV) defendeu que o interesse público deve prevalecer sobre o sigilo da investigação. Considerando que o ex-secretário foi exonerado logo após o segundo relatório da CGE, ela perguntou o que de tão grave havia no documento. O deputado Leleco Pimentel (PT) observou que a investigação sigilosa serviu para exonerar o secretário, mas não para suspender o contrato.
Lohanna questionou com que frequência a Controladoria se reúne com a cúpula do governo para tratar de investigações preliminares. Além disso, perguntou quais serão os próximos passos adotados pela CGE, que, no seu entender, não deveria ficar de mãos atadas enquanto aguarda as medidas por parte do governo.
A deputada Bella Gonçalves (PT) sublinhou que a manutenção de contratos sob investigação não é um caso isolado na atual administração estadual. Ela classificou o episódio como parte de um modelo crônico de fragilidade e leniência na fiscalização do governo Zema, comparando o escândalo da Educação aos recentes esquemas de corrupção descobertos em órgãos ambientais do Estado para a concessão de licenças de mineração irregular.
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