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Minas tem mais de 11 milhões sem educação básica completa e governo aprofunda crise na EJA

Com quase 1 milhão de analfabetos e queda nas matrículas da Educação de Jovens e Adultos, especialistas, professores e estudantes denunciam abandono da política educacional em Minas Gerais

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Foto: Guilherme Bergamini

Mais de 11 milhões de pessoas em Minas Gerais não concluíram a educação básica. Desse total, quase 1 milhão sequer foi alfabetizado. Em vez de enfrentar o problema com ampliação de vagas, fortalecimento da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e garantia de permanência estudantil, o governo de Minas assiste à deterioração da política educacional enquanto reduz a oferta dessa modalidade de ensino no estado. A denúncia foi feita durante audiência pública da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), realizada nesta quinta-feira (21/5/26), com participação de estudantes, professores, pesquisadores e representantes de instituições públicas.

Os números apresentados na reunião desmontam o discurso de modernização propagandeado pelo governo estadual. Segundo dados debatidos na audiência, Minas registrou queda de 19,7% nas matrículas da EJA entre 2024 e 2025. Além disso, 292 municípios não ofertaram a modalidade neste ano e 619 escolas municipais estão sem matrículas para Educação de Jovens e Adultos. O cenário atinge principalmente regiões historicamente vulnerabilizadas, como o Norte de Minas e os vales do Jequitinhonha e do Mucuri.

Estado nega direito à educação e empurra população para exclusão

Para especialistas e profissionais que acompanham a realidade da EJA, o problema não é falta de interesse da população, mas ausência de política pública efetiva. Coordenadora do Fórum Estadual Permanente de Educação (Fepemg), Analise da Silva afirmou que o Estado ignora as condições concretas dos estudantes, muitos deles trabalhadores, moradores de áreas rurais, idosos ou responsáveis por cuidados familiares. Segundo ela, a ausência de busca ativa, a rigidez das ofertas e a falta de assistência estudantil impedem o acesso e a permanência dessas pessoas na escola.

A pesquisadora também destacou que Minas Gerais, mesmo sendo um dos estados mais ricos do país, ocupa posição vergonhosa no ranking de analfabetismo. “Os dados do IBGE nos dizem, não é que está indo devagar. Nos dizem que está piorando. Minas Gerais é o 15º em pessoas não alfabetizadas. É uma vergonha nacional”, afirmou durante a audiência.

A procuradora do Ministério Público de Contas, Cristina Andrade Melo, classificou a situação como uma dupla violação de direitos. “É muito triste nos depararmos com essas estatísticas porque foram pessoas que tiveram o direito negado duas vezes: na época certa e enquanto adultos”, declarou.

Governo acumula respostas genéricas enquanto estudantes enfrentam evasão e sobrecarga

Os relatos apresentados na ALMG escancararam o abismo entre as normas burocráticas defendidas pela Secretaria de Estado de Educação e a realidade vivida pelos estudantes da EJA. Professores denunciaram excesso de exigências administrativas, ausência de integração entre sistemas e condições que dificultam a permanência nas escolas. A professora Shirley Santos Oliveira, do Cesec Venda Nova, afirmou que muitos estudantes enfrentam jornadas exaustivas de trabalho, violência e falta de acesso a transporte, alimentação e inclusão digital. “Existe um descompasso entre norma e realidade. O resultado é previsível: evasões, interrupções e frustrações”, afirmou.

Os Centros Estaduais de Educação Continuada (Cesecs), responsáveis por oferecer ensino semipresencial e mais flexível, também aparecem no centro da crise. Estudantes relataram que o modelo híbrido é fundamental para conseguir conciliar trabalho, deslocamento e cuidados familiares com os estudos. Para muitos, a flexibilidade não é comodidade, mas a única possibilidade concreta de concluir a educação básica depois de décadas de exclusão.

Mesmo diante dos relatos e dos dados alarmantes, a resposta do governo estadual foi marcada por generalidades e ausência de medidas concretas. Representando a Secretaria de Estado de Educação, a diretora Vanessa Nicoletti de Oliveira alegou dificuldades de adequação às normas federais e afirmou que o Estado “tem buscado alternativas”. A declaração foi criticada pela deputada Beatriz Cerqueira, presidenta da Comissão de Educação, que apontou a falta de objetividade do governo diante da gravidade da situação.

Governo ameaça continuidade dos Cesecs e prioriza interesses privados

Durante a audiência, Beatriz Cerqueira (PT), presidenta da comissão, relacionou os altos índices de exclusão educacional às ameaças de fechamento dos Cesecs e à ausência de diálogo com quem vive diariamente a realidade da educação pública. Para a parlamentar, o governo estadual tem produzido resoluções sem debate e promovido um processo de desmonte silencioso da EJA em Minas Gerais.

“O Estado não está garantindo esse direito, não garante o direito à matrícula, não garante a continuidade do Cesec, que é esse modelo semipresencial. Portanto, nós estamos juntando todo mundo que se preocupa com essa população”, afirmou.

Minas tem mais de 11 milhões sem educação básica completa e governo aprofunda crise na EJA

Deputada Estadual Beatriz Cerqueira (PT)

A deputada também criticou a prioridade dada a iniciativas privadas dentro da rede pública de ensino, enquanto profissionais da educação seguem sem valorização e estudantes enfrentam abandono estrutural.

“Isso poderia evitar que resoluções surpresas e sem diálogo fossem publicadas, como têm acontecido. Para que investimentos não sejam feitos em grupos privados, com seus coachings, que estão dando palestras em escolas públicas de Minas. Esse investimento deveria ir para os salários dos professores e suas carreiras.”

Enquanto o governo de Mateus Simões mantém um discurso administrativo distante da realidade das escolas, Minas Gerais aprofunda um cenário em que milhões de pessoas seguem excluídas do direito básico à educação. Os dados debatidos na Assembleia revelam que o problema deixou de ser pontual e se tornou estrutural, resultado direto da ausência de prioridade política para a Educação de Jovens e Adultos no estado.

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