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Bactérias e sucateamento: Deputada aciona MP contra o governo Zema/Simões após constatar colapso na Maternidade Odete Valadares

Denúncias de precarização, risco de contaminação da água, violência obstétrica e falhas estruturais revelam cenário de abandono em uma das principais referências da saúde materna do Estado

Maternidade Odete Valadares expõe colapso da saúde pública em Minas sob gestão de Mateus Simões
Foto: Luiz Santana

A crise na saúde pública de Minas Gerais voltou a escancarar o projeto de sucateamento conduzido pelo governo de Romeu Zema e agora mantido por Mateus Simões. Mesmo após investimentos superiores a R$ 1,3 milhão em reformas no bloco obstétrico da Maternidade Odete Valadares, em Belo Horizonte, a unidade segue acumulando denúncias graves de precariedade estrutural, falhas operacionais, assédio moral, violência obstétrica e até risco de contaminação da água utilizada em setores essenciais do hospital.

As denúncias vieram à tona durante visita técnica realizada pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, presidida pela deputada estadual Ana Paula Siqueira (PT), responsável pela solicitação da agenda. O cenário encontrado reforça o que trabalhadores da saúde denunciam há anos. Enquanto o governo estadual tenta sustentar um discurso vazio, profissionais e pacientes convivem diariamente com a deterioração das condições de atendimento em uma maternidade que deveria ser prioridade absoluta para o Estado.

O colapso constatado na Odele Valadares levou a parlamentar a acionar o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), além de requerimentos cobrando providências imediatas e esclarecimentos da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).

Reforma milionária não resolveu problemas estruturais

As obras realizadas entre julho e dezembro do ano passado não foram suficientes para resolver problemas básicos da estrutura da maternidade. Durante a visita, representantes sindicais e parlamentares identificaram espaços apertados, má distribuição dos ambientes, falhas nos sistemas internos, dificuldades operacionais e ausência de condições adequadas para trabalhadores e pacientes.

“Não é um ambiente adequado. O espaço destinado às mães é o mesmo usado pela enfermagem. Ficam todos juntos – mãe, acompanhante, computadores e a equipe de saúde – em uma área mínima, onde há dificuldade até mesmo para circular”, denunciou a diretora do Sind-Saúde, Neuza Freitas.

A diretora do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, Érika Mendes dos Santos, apontou problemas no alojamento da enfermagem e criticou a iluminação inadequada nos espaços destinados às mulheres em trabalho de parto. Enquanto pacientes permanecem expostas a uma luminosidade excessiva, profissionais enfrentam dificuldade para realizar procedimentos em ambientes mal planejados.

Também foram identificados buracos no teto do laboratório, falhas de conexão de internet, ausência de integração entre os sistemas da farmácia e até a inutilização da banheira instalada na área de pré-parto, que segue sem funcionamento devido à falta de luvas.

A deputada Ana Paula Siqueira questionou o resultado da intervenção milionária realizada pelo Estado. 

“Os espaços ficaram apertados, estão mal distribuídos. Como se investe tanto em uma área sem considerar esses aspectos?”, criticou.

imagem ana paula

Deputada Estadual Ana Paula Siqueira (PT)

Violência obstétrica e falta de anestesistas agravam denúncias

A situação da maternidade vai além da infraestrutura precária. Durante a visita técnica, surgiram relatos de violência obstétrica e denúncias de assédio moral dentro da unidade. Um dos casos citados foi o de uma mulher que permaneceu mais de dez horas em trabalho de parto antes de ser submetida ao uso de fórceps.

Para a deputada Ana Paula Siqueira, os relatos demonstram a gravidade do cenário enfrentado pelas mulheres atendidas na unidade. “Aqui é uma maternidade de referência, com alto índice de partos naturais, mas a experiência dessa mãe que nos apresentou um relato tão triste não pode ser negligenciada”, afirmou.

A parlamentar também demonstrou preocupação com a falta de anestesistas, problema que impacta diretamente a segurança e o atendimento às pacientes. Em uma maternidade de referência estadual, a ausência de profissionais essenciais evidencia o aprofundamento da crise da saúde pública mineira.

Água contaminada amplia crise

Como se não bastassem os problemas estruturais e assistenciais, funcionários denunciaram a presença de bactérias na água utilizada dentro da maternidade. Um laudo produzido pela própria Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais identificou alterações nos parâmetros de qualidade da água e apontou a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em diferentes setores da unidade.

A bactéria foi encontrada em áreas extremamente sensíveis da maternidade, incluindo o bloco cirúrgico, o lactário, a UTI móvel, o bloco obstétrico, o setor de cuidados intermediários e o setor de pasteurização. Também foram detectadas bactérias heterotróficas em todos esses locais e no Centro de Terapia Intensiva Adulto.

A presença da Pseudomonas aeruginosa é considerada especialmente preocupante porque pode causar infecções graves em pessoas com baixa imunidade, cenário crítico em uma maternidade que atende recém-nascidos, gestantes e pacientes em situação de vulnerabilidade clínica.

Segundo trabalhadores da unidade, mesmo após a divulgação do laudo, materiais hospitalares continuaram sendo esterilizados com utilização da água. Servidores também relataram episódios de diarreia e medo de contaminação, sobretudo em setores mais delicados, como o CTI neonatal.

Os relatos aumentam a sensação de insegurança dentro de uma unidade que deveria funcionar sob controle sanitário rigoroso. Funcionários ainda questionam se todas as medidas técnicas necessárias para conter o problema realmente foram executadas.

Veja sobre: Laudo aponta bactérias na água da Maternidade Odete Valadares, em BH, e risco de contaminação

Sucateamento e terceirização entram na mira das denúncias

Para entidades sindicais, os problemas enfrentados pela Maternidade Odete Valadares não são isolados, mas consequência direta da política adotada pelo governo Zema/Simões para a saúde pública mineira.

A diretora do Sind-Saúde, Neuza Freitas, afirmou que denúncias já foram encaminhadas ao Ministério Público e criticou o avanço da terceirização na unidade. “A intenção do Governo é sucatear para privatizar. A Maternidade Odete Valadares tem uma história, um atendimento de excelência e, nos últimos anos, com a terceirização, não estamos vendo avanço”, denunciou.

Comissão promete monitoramento das denúncias

Diante da gravidade das denúncias, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher informou que irá produzir um relatório técnico sobre a situação encontrada na maternidade. A deputada Ana Paula Siqueira também afirmou que pretende acompanhar a revisão dos procedimentos de cesárea, monitorar a apuração das denúncias e cobrar melhorias no laboratório e no bloco obstétrico.

O cenário revelado na Maternidade Odete Valadares desmonta o discurso de eficiência propagado pelo governo estadual. Em uma unidade referência para a saúde materna em Minas Gerais, pacientes e trabalhadores seguem convivendo com estruturas precárias, denúncias graves e até risco sanitário dentro de setores hospitalares essenciais.

Leia mais: Fim da escala 6×1 ganha força em Minas com mobilização do Bloco Democracia e Luta

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