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Governo Zema/Simões aprofunda crise do IPSEMG e servidores denunciam abandono

Após aumento das contribuições, audiência na ALMG expõe falta de consultas e exames, redução da rede credenciada, falta de materiais e problemas enfrentados por usuários e trabalhadores

IPSEM ALMG
Debate sobre o Ipsemg na Comissão de Administração Pública foi solicitado pela deputada Beatriz Cerqueira (PT). Foto: Alexandre Netto

O servidor público de Minas Gerais passou a pagar mais pelo IPSEMG Saúde, mas os problemas de atendimento continuam sendo denunciados por quem depende do instituto. Em audiência pública realizada nessa terça-feira (15), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), usuários e representantes dos trabalhadores relataram dificuldades para marcar consultas e exames, falta de profissionais e de unidades conveniadas, além de problemas na oferta de materiais para procedimentos médicos.

O debate, realizado por iniciativa de deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT), ocorreu pouco mais de um ano depois da entrada em vigor do reajuste das contribuições do IPSEMG, aprovado durante o governo Romeu Zema (Novo). A mudança elevou o valor mínimo descontado dos contracheques de R$ 34,55 para R$ 60 e o teto de R$ 287,86 para R$ 500. Também foi criada uma cobrança adicional de 1% para usuários com mais de 59 anos, além de contribuições para cônjuges e dependentes. A justificativa apresentada pelo governo para o aumento foi a necessidade de “enfrentar o déficit do IPSEMG Saúde”.

A estimativa é que a alteração tenha representado R$ 954 milhões a mais na arrecadação até o fim de 2026. A questão levantada na audiência foi justamente o que acontece depois que esse dinheiro sai do contracheque dos servidores, uma vez que os serviços não melhoraram.

A arrecadação aumentou. E o atendimento?


Mais de um ano depois de o governo Zema aumentar a cobrança sobre os servidores para reforçar as receitas do IPSEMG, a pergunta que ficou na audiência da ALMG foi direta: onde está a melhoria do atendimento?


A direção do instituto apresentou investimentos em pessoal, hospitais, leitos e ampliação da rede credenciada como resultados do aumento da arrecadação. Mas os relatos apresentados por usuários e representantes dos servidores apontam uma realidade bem diferente: o dinheiro aumentou, mas o acesso à assistência continua marcado por filas, dificuldade para conseguir exames, falta de profissionais e problemas na rede credenciada.

Entre as principais reclamações está a dificuldade para agendar consultas e exames, a falta de profissionais e convênios no interior e a ausência de materiais necessários para procedimentos médicos. Também foram relatados problemas com o descredenciamento de clínicas e hospitais, deixando usuários sem atendimento ou obrigados a procurar alternativas dentro de uma rede que, segundo os próprios relatos, não consegue absorver toda a demanda.


Para a deputada Beatriz Cerqueira, o alegado aumento de investimentos e receitas do IPSEMG não condiz com a realidade vivida pelos usuários, que continuam sem conseguir acesso nem mesmo ao atendimento básico. Segundo a parlamentar, o IPSEMG deveria apresentar os mesmos dados utilizados para justificar o aumento das contribuições em 2025 e mostrar, por região, quais serviços efetivamente melhoraram depois da mudança. Para ela, apresentar uma base de dados diferente pode criar “uma falsa percepção de melhora” que não corresponde aos relatos feitos durante a audiência.

As informações apresentadas na audiência serão sistematizadas e encaminhadas ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) para acompanhamento. A cobrança agora é para que o aumento da arrecadação seja acompanhado de transparência e, principalmente, de resultados concretos para os servidores que financiam o instituto todos os meses.

No interior, IPSEMG deixa servidores na fila e sem atendimento

Se na apresentação do IPSEMG os números apontam para expansão da estrutura, os relatos de quem depende do instituto revelam outro cenário. Fora da Região Metropolitana, conseguir uma consulta, um exame ou até um retorno médico continua sendo uma dificuldade para servidores que já têm o desconto do IPSEMG retirado todos os meses do contracheque.

Na audiência, usuários denunciaram falta de profissionais, redução da rede credenciada, encerramento de convênios e dificuldade para realizar exames e procedimentos.

A situação de Uberlândia foi descrita pela dirigente do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG) Elaine Cristina Ribeiro como “inadmissível e vexatória”. Já a presidente da Associação dos Docentes da Universidade do Estado de Minas Gerais (ADUEMG), Cristiana Oliveira, afirmou que tenta agendar um ultrassom desde agosto, sem conseguir o atendimento.


O problema também aparece nos relatos de quem utiliza diretamente os serviços do instituto. Núbia Roberta Dias, diretora do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde), contou que a clínica onde realizou uma cirurgia de catarata foi descredenciada antes mesmo de seu retorno médico. Em outras unidades, segundo ela, usuários foram informados de que as cotas de procedimentos já estavam esgotadas.

A precariedade apontada na audiência não atinge apenas quem procura atendimento. Os próprios trabalhadores do IPSEMG denunciaram problemas na estrutura de pessoal do instituto, colocando em xeque a capacidade da gestão de manter um serviço público de saúde com profissionais valorizados e condições adequadas de trabalho.

Pedro Oliveira, presidente do Sindicato dos Servidores do IPSEMG, afirmou que os baixos salários dificultam a permanência dos trabalhadores e contribuem para a alta rotatividade. Com 25 anos de serviço no instituto e formação superior em Direito, ele relatou receber R$ 2.043 de salário-base.

A vice-presidente do sindicato, Marina Costa, cobrou a revisão das carreiras e a valorização dos servidores. Segundo ela, a remuneração no IPSEMG é ainda inferior à praticada na Fhemig, cuja própria estrutura salarial também enfrenta defasagem.

Durante a audiência, trabalhadores também apontaram falta de materiais, dificuldade para obter respostas às cobranças e problemas provocados pela constante troca de funcionários. O resultado é uma situação em que usuários reclamam da dificuldade de acesso enquanto os próprios trabalhadores denunciam condições que dificultam a manutenção de uma equipe estável.

Mais arrecadação, mas números questionados

A realidade relatada por usuários e trabalhadores expõe uma pergunta que permanece sem resposta: quanto dessa arrecadação efetivamente chegou à ponta e melhorou a vida de quem depende do IPSEMG?

Aumentar o desconto no contracheque é uma decisão administrativa. Garantir que o servidor consiga marcar uma consulta, realizar um exame e ter continuidade no tratamento é a obrigação que precisa ser cobrada da gestão.

A audiência da ALMG expôs essa contradição: o governo apresenta números de investimentos, enquanto servidores continuam relatando filas, falta de atendimento, redução da rede credenciada e precarização das condições de trabalho.

Para quem passou a pagar mais, a cobrança por resultados não é opcional. É o mínimo esperado de um serviço que é financiado todos os meses pelos próprios servidores públicos de Minas Gerais.

O caso do IPSEMG expõe uma lógica na gestão Zema/Simões: a prioridade parece estar cada vez mais concentrada no aumento do lucro, enquanto a qualidade do serviço oferecido aos servidores fica em segundo plano.

Não basta fazer a conta fechar se o servidor continua sem conseguir ser atendido. Saúde pública não pode ser tratada apenas como uma questão de arrecadação, contenção de despesas ou resultado financeiro. O objetivo principal deveria ser garantir que o recurso arrecadado se transforme em atendimento digno, rápido e acessível para quem financia o instituto todos os meses.

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