Parlamentares criticam a implantação de novo sistema em Minas, que continua operando mesmo com decisão liminar contrária

Apesar de uma decisão liminar da Justiça ter determinado a suspensão imediata do novo sistema de regulação de saúde em Minas Gerais, no dia 22 de maio, o serviço continua operando por orientação direta do governo Zema/Simões. Em fiscalização realizada nesta quinta-feira (28/5), parlamenteres do Bloco Democracia e Luta constataram um cenário alarmante: falhas estruturais graves, negligência no atendimento aos municípios e o completo sucateamento das ferramentas de controle de vagas de internação.
A visita técnica foi realizada pela Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a pedido dos deputados Doutor Jean Freire (PT) e Lucas Lasmar (Rede), após uma avalanche de denúncias envolvendo falhas graves no encaminhamento de pacientes, transferências para hospitais sem vagas e deslocamentos de centenas de quilômetros sem qualquer garantia de atendimento. A deputada Lohanna (PV) também acompanhou a atividade.
O novo sistema substituiu o SUSFácil, utilizado há duas décadas em Minas Gerais. Segundo parlamentares e profissionais da saúde, a mudança foi feita de maneira abrupta, sem treinamento adequado, sem diálogo com os hospitais e ignorando alertas de especialistas e do Conselho Estadual de Saúde.
A liminar judicial para retorno do SUSFácil foi em resposta a questionamentos do Ministério Público Estadual quanto a falhas ocorridas com o uso do sistema, que entrou em operação no último dia 5.
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Para os deputados, o cenário encontrado durante a visita confirmou o que já vinha sendo denunciado há meses: a gestão estadual colocou em funcionamento uma plataforma sem estrutura mínima de operação, colocando vidas em risco.
O deputado Lucas Lasmar (Rede), membro efetivo da Comissão de Saúde da ALMG, criticou o fato de o novo sistema ter alijado o histórico do paciente registrado no SUSFácil, que não foi desativado, mas serve agora somente como fonte de consulta de dados, sem integração com o novo sistema.
Ele também apontou que a maioria dos médicos reguladores encontrados em atuação na visita não são autoridades sanitárias, aquelas que têm poder de polícia para intervir em situações de risco à vida.
“Ficou nítido que o sistema Core não foi preparado para ser implantado corretamente no Estado. Há hospitais não treinados e todo o histórico do paciente no SUSFácil não foi incorporado ao novo sistema”.

Segundo Lasmar, unidades como Hospitais da Baleia e Luxemburgo, na Capital, e outros da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), não estariam conseguindo se comunicar de forma correta com o novo sistema.
Ele disse estar levantando casos de mortes de pacientes por falta ou erros na destinação de vagas para acionar o Ministério Público.
Transferências de até 700 km sem leito disponível
Entre as denúncias mais graves está a de que pacientes estariam sendo enviados para cidades distantes sem qualquer estrutura disponível. Durante a visita, o deputado Doutor Jean Freire recebeu a informação de que três pacientes de Nanuque, cidade localizada a cerca de 700 quilômetros de Diamantina, teriam sido transferidos mesmo sem existência de vaga hospitalar. Um deles estaria entubado. “No caso de vaga zero, por que isso, e por que não acionar Teófilo Otoni, mais próximo?”, criticou.
“Queremos melhorias. Somos a favor da transparência e da agilidade, mas não pode ser feito desse jeito, com um Estado que demonstra que não conhece a rede de saúde”.

Deputado Doutor Jean Freire (PT)
A deputada Lohanna (PV) criticou o descumprimento da decisão liminar. “A gente veio visitar um serviço irregular, que não era para estar funcionando desde sexta-feira por decisão judicial”, frisou ela.
Aparlamentar citou casos que classificou de injustificáveis, como o de uma grávida de Arcos que a Core encaminhou para Governador Valadares, mais de 500 quilômetros distante, e o de paciente em quadro de isquemia em Divinópolis, direcionado pelo sistema para a Capital, mesmo sem haver vaga para ele.
As críticas ao modelo recém-implantado pelo governo estadual não são recentes. Ainda em 2025, audiências públicas na ALMG já alertavam que o projeto de centralização da regulação poderia agravar problemas já instalados da saúde mineira, como a falta de médicos reguladores, a precarização do trabalho e a ausência de transparência. Parlamentares, promotores e representantes da saúde denunciaram que o governo insistia em mudanças estruturais sem resolver gargalos básicos do sistema.




