NOTÍCIAS

Cultura no limite: baixos salários e denúncias de represálias e assédio escancaram abandono da Orquestra Sinfônica e do Coral Lírico de Minas

Relatos de baixos salários, assédio moral e represálias expõem a degradação das condições de trabalho na Orquestra Sinfônica e no Coral Lírico, sob responsabilidade do governo estadual

2557465
Foto: Willian Dias

Baixos salários e desvalorização estrutural

Audiência pública da Comissão do Trabalho da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), realizada no dia (29/4/26), escancarou uma realidade que o governo estadual insiste em ignorar: músicos e cantores da Fundação Clóvis Salgado enfrentam uma rotina marcada por baixos salários, instabilidade e desvalorização profissional. Com remunerações iniciais em torno de R$ 1,6 mil, os trabalhadores da Orquestra Sinfônica e do Coral Lírico recebem hoje os menores salários entre instituições similares do país.

A consequência direta dessa política é a precarização contínua. Sem concurso público desde 2013, o Estado passou a depender de contratações temporárias e frágeis, criando um ambiente de instabilidade permanente que compromete a vida dos trabalhadores e a qualidade da produção cultural.

Precarização e retorno de práticas ilegais

Mesmo após a atuação do Ministério Público do Trabalho no passado, os relatos apontam um retrocesso evidente. A denúncia do sindicato é clara ao expor a repetição de práticas já combatidas: “Em 2019, detectamos contratos precários por meio do MEI, acionamos o Ministério Público do Trabalho e conseguimos reverter para a CLT, com mais estabilidade. Mas hoje isso está acontecendo de novo”, queixou-se o presidente do sindicato, Antônio Maria Pompeu Viola.

A precarização deixa de ser exceção e passa a ser regra. O resultado é um cenário em que profissionais altamente qualificados precisam arcar com custos básicos para exercer sua função. Um violoncelista da orquestra sintetiza esse absurdo ao relatar que recebe cerca de R$ 2,6 mil, valor equivalente ao gasto com manutenção do próprio instrumento. “O Estado nunca me deu nada para manter o instrumento”, afirma, evidenciando o abandono.

Assédio, medo e represálias

Se os salários já expõem o problema, o ambiente de trabalho revela algo ainda mais grave. A audiência foi marcada por tensão, denúncias e medo. O relato do sindicato aponta diretamente para a existência de pressão interna: “Sem contar o assédio moral. Com a demissão da maestra Lígia Amadio, toda a orquestra se rebelou. Agora criam dificuldades até para fazermos reuniões com os músicos, que são pressionados de forma indevida”.

As denúncias de represálias se materializam em demissões. Trabalhadores foram dispensados logo após participarem de audiências públicas, o que levou à interrupção da própria reunião da Comissão do Trabalho diante da gravidade do caso. A situação escancara um ambiente em que falar sobre direitos pode custar o emprego.

A demissão da maestra Lígia Amadio se torna o símbolo máximo dessa lógica. O afastamento ocorreu cerca de 40 dias após a profissional denunciar publicamente a precarização e a defasagem salarial, reforçando a percepção de punição a quem expõe os problemas estruturais.

Cultura tratada como descartável

Os impactos dessa política ultrapassam o cotidiano dos trabalhadores e atingem o próprio futuro da cultura em Minas Gerais. Profissionais qualificados estão deixando suas carreiras por falta de perspectiva. Um dos relatos apresentados na audiência evidencia essa perda: artistas formados ao longo de anos abandonam a área para buscar estabilidade em outras profissões.

No Coral Lírico, a realidade é a mesma. Um cantor descreve a situação ao mostrar que até os custos básicos da profissão são ignorados pelo Estado: “O instrumento que eu preciso manter é minha voz, com a ajuda de fonoaudiólogo e otorrinos especializados, tudo por minha conta”. A ausência de investimento transforma a atividade artística em esforço individual de sobrevivência.

A tentativa de impor contratos por projeto, com alta rotatividade, agrava ainda mais a situação. Como denunciado na audiência, “somos funções especializadas, isso não nos serve”, deixando claro que a lógica adotada ignora completamente a natureza dessas atividades.

O mínimo virou reivindicação

As demandas apresentadas pelos trabalhadores são elementares: revisão do plano de carreira, recomposição salarial, realização de concurso público, regularização dos vínculos e combate ao assédio moral. Ainda assim, seguem sem resposta efetiva.

O sentimento de indignação aparece de forma direta na fala de um dos músicos: “Não queremos só dinheiro, queremos respeito”. A frase resume o cenário em que o básico deixou de ser garantido.

Um retrato da gestão estadual

O que emerge da audiência é um quadro consistente de desmonte. Baixos salários, ausência de concursos, vínculos precários e denúncias de represálias não são fatos isolados, mas parte de uma mesma estrutura que vem sendo mantida ao longo dos anos.

A própria condução da audiência, presidida pelo deputado Leleco Pimentel (PT), levou à criação de uma mesa de negociação, numa tentativa de responder a uma crise já consolidada. Ainda assim, o cenário apresentado pelos trabalhadores demonstra que o problema não está em pontos específicos, mas na forma como a cultura tem sido tratada pelo governo estadual.

Leia mais: Deputada Leninha aciona Ministério Público para apurar possível uso indevido da comunicação oficial do Governo de Minas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

CADASTRE-SE PARA RECEBER MAIS INFORMAÇÕES DO BLOCO DEMOCRACIA E LUTA

Formulário de Cadastro

Zema quer vender Minas Gerais

Zema inimigo da Educação

Reforma pra quê?

Coragem para resistir, união pra construir!