Crescimento de 68% no número de presos ligados ao crime organizado escancara a transformação de Minas Gerais em território estratégico das maiores facções do país e ligação internacional

Entre 2019 e março de 2026, o número de presos ligados a facções criminosas em Minas Gerais saltou de 1.900 para cerca de 3.200. Um crescimento de 68% que não admite maquiagem. Os dados foram denunciados em reportagem da Rede Record News, em 05/04/26.
O que antes era uma presença discreta, virou consolidação. Nos últimos sete anos anos – sob o governo Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD), o estado passou a ocupar posição estratégica na disputa entre organizações criminosas. Belo Horizonte e a Região Metropolitana se tornaram pontos centrais dessa expansão.
Hoje, a população mineira vive em meio à atuação estruturada do PCC, do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro. Não se trata mais de infiltração. Trata-se de domínio em construção.
Facções atravessam fronteiras
A própria estrutura do crime revela o tamanho da falha. Das 50 principais lideranças das principais facções ligadas a Minas, 45 estão no Rio de Janeiro. Ou seja, o comando opera de fora, enquanto o território mineiro é utilizado como base de expansão.
As conexões não param no Sudeste. Prisões recentes escancararam vínculos do esquema operado em Minas Gerais com o tráfico internacional. O caso de Douglas de Azevedo Carvalho, o “Mancha”, preso na Bolívia, mostrou alianças para envio de drogas à Europa e à Ásia. Patrick Fernandes de Oliveira, capturado no Paraguai, comandava a atuação do PCC em cidades como Contagem e Ribeirão das Neves.
Minas virou rota, plataforma e elo de uma cadeia global. E isso aconteceu diante de um crescimento contínuo, documentado e ignorado na prática.
Sistema prisional em colapso
Se há um lugar onde o avanço das facções aparece sem filtro, é no sistema prisional. Com 166 unidades e cerca de 72 mil pessoas cumprindo pena em regime fechado, ele se tornou o principal termômetro da expansão criminosa. Quase tudo acontece dentro das prisões. Lideranças seguem articulando, se comunicando e operando.
A bomba-relógio da superlotação: Minas Gerais tem a segunda maior população carcerária do Brasil, atrás apenas de São Paulo. Dados da Senappen de 2025, revelados pelo G1, expõem um déficit de quase 26 mil vagas. O cenário é agravado pela carência de políticas de ressocialização, transformando o sistema em um gargalo que apenas retroalimenta a criminalidade.
Reportagem do portal G1, novembro de 2025, revelou dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG), que apontam que, nos últimos 10 anos, foram desativadas 44 unidades prisionais que estavam sob administração do estado.
O fechamento e a superlotação de unidades impactam também o trabalho dos agentes. Segundo o Sindicato da Polícia Penal do Estado de Minas Gerais (Sindpenal), o número de agentes está defasado.
“Temos hoje um efetivo de quase 16 mil policiais penais, sendo que quase mil desses policiais são contratados. Temos 700 policiais aptos a tomar posse do último concurso que ainda não foram chamados, e o ideal hoje para suprir esse déficit seriam 25 mil policiais penais”, afirmou à reporagem o presidente do sindicato, Jefferson Marcelo Gonçalves de Souza.
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Déficit geral na segurança pública
O déficit nas polícias mineiras é uma crise que corrói a segurança pública por dentro, transformando a promessa de eficiência do governo em maquiagem estatística.
Ao deixar as ruas com menos 15 mil militares e as delegacias com um vácuo de 6.500 civis, o governo Zema/Simões não apenas sobrecarrega o servidor, mas entrega o território à mercê das facções.
Um território explorado pelo crime organizado
A geografia mineira também foi capturada pela lógica das facções. A operação “Mar de Minas” revelou o uso da malha fluvial para lavagem de dinheiro. Barcos, casas em represas e rotas internas passaram a integrar o circuito financeiro do crime. O estado não apenas abriga facções. Ele passou a ser utilizado como instrumento de suas operações.
Discurso de controle versus realidade em expansão
Enquanto os números crescem, a resposta oficial insiste em afirmar controle. A declaração de que “o estado sempre vai ser mais forte do que qualquer facção” contrasta com a realidade concreta de expansão, articulação interestadual e conexão internacional. Não há compatibilidade entre um crescimento de quase 70% e a ideia de domínio da situação. O que se vê é um estado que reagiu, mas não conteve. Que atuou, mas não impediu. Que acompanhou o avanço, sem conseguir freá-lo.
Quando o crime avança, o governo de falha
Minas Gerais deixou de ser área periférica e se tornou peça central no tabuleiro do crime organizado. Isso não acontece por acaso. Acontece quando há espaço, continuidade e ausência de resultados proporcionais à gravidade do problema. As facções cresceram, se consolidaram e se internacionalizaram enquanto o estado acumulava números, operações e declarações que não impediram o avanço. O resultado está posto. Minas hoje é território disputado. E isso tem responsável político.
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