“Reajuste” de 5,4% anunciado pelo governo Zema é reação à pressão dos trabalhadores da Educação, que já haviam decidido pela greve

O governador Romeu Zema (Novo) anunciou uma correção inflacionária salarial pífia de 5,4% para cerca de 673 mil servidores ativos, aposentados e pensionistas de Minas Gerais. O projeto ainda nem chegou à Assembleia Legislativa e já gera insatisfação e revolta no funcionalismo. Em 2023, Zema aumentou o próprio salário e de seus secretários em quase 300%, enquanto segue desrespeitando a obrigação legal junto aos trabalhadores.
Na educação, o anúncio não evitou a paralisação e comprova uma reação do governo ao movimento de greve que já havia se estabelecido no estado. O Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG) confirmou greve a partir desta quarta-feira, dia 4. A categoria reivindica 41,83% de reajuste, correspondente às perdas dos últimos anos. Segundo a entidade, mais uma vez o governo mente ao afirmar que o percentual anunciado garante o piso do magistério. O novo piso nacional para 2026 foi fixado em R$ 5.130,63, conforme portaria do MEC.
A coordenação do Sind-UTE/MG afirma que o direito ao reajuste anual vem sendo desrespeitado e que a perda salarial compromete tanto os profissionais quanto a qualidade da educação.
A categoria também exige o fim dos ataques do governo Zema à escola pública, a exemplo do projeto que tenta impor o modelo cívico-militar a mais de 700 unidades. Depois de denúncias da Comissão de Educação da ALMG, presidida pela deputada Beatriz Cerqueira (PT), o programa foi barrado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) e pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
“São quase oito anos de retrocessos e ataques aos direitos dos trabalhadores da educação, além de uma política educacional que visa ao desmonte, à privatização e à precarização das condições de ensino. Não podemos mais aceitar essa situação”, afirma o sindicato.
A crítica também foi reforçada pelo diretor do Sindicato dos Gestores e Auditores Fiscais do Estado de Minas Gerais (Sinfazfisco-MG), Hugo René de Souza. Segundo ele, o índice de 5,4% está abaixo do necessário para uma recomposição justa. O dirigente aponta que os servidores acumulam cerca de 30% de perda no poder de compra e afirma que, no mínimo, seria esperada a recomposição da inflação dos últimos dois anos.
Com perdas acumuladas em mais de 50%, Forças de Segurança se revoltam
A Polícia Civil de Minas Gerais, que já enfrenta um cenário de colapso, com déficit de servidores, cortes orçamentários, além de denúncias de sobrecarga e adoecimento entre os agentes, recebeu o anúncio do governador como uma afronta. “Um índice insuficiente, que não recompõe perdas reais e ignora a defasagem acumulada ao longo dos anos. Na prática, é apenas mais um gesto simbólico diante de um problema estrutural que segue sem solução”, afirma o Sindicato dos Servidores da Polícia Civil no Estado de Minas Gerais (Sindpol/MG).
E não é a primeira vez! A categoria lembra que, em 2019, foi firmado o compromisso de recomposição salarial em três parcelas sucessivas de 12%. Apenas uma foi cumprida. As demais foram simplesmente abandonadas. “O que se vê é a repetição de um padrão: compromissos assumidos, expectativas criadas e, depois, o silêncio”, relatou o Sindpol.
A Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militarares (Aspra/PMGM) afirmou que, ao conceder “reajuste” que não atende a categoria, “o governo ignora o processo de negociação com as entidades representativas dos militares. “Zema encerra um mandato sem palavra, do início ao fim”, disse.
SindSaúde denuncia: “Reajuste anunciado por Zema chega como palanque eleitoral”
O Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde (Sind-Saúde) também enfatizou que o anúncio de Zema não recompõe as perdas salariais dos servidores e está desconectada com a realidade de desvalorização e arrocho dos salários do funcionalismo. “Desde o inicio do mandato do governador Zema, os servidores da Saúde acumulam mais de 20% de perdas inflacionárias, isso significa que nos oito anos do seu governo o poder de compra dos trabalhadores públicos mineiros despencou pela metade.”, disse.
Ainda segundo a entidade, o anúncio feito no momento em que Zema tenta se projetar nacionalmente também levanta questionamentos. “Após anos sem política permanente de recomposição anual, o governo apresenta um índice que não recupera as perdas históricas justamente no momento em que o cenário político exige maior visibilidade e diálogo com categorias estratégicas do serviço público”.
O Sind-Saúde também destaca a completa falta de diálogo com os representantes dos trabalhadores. “Nenhuma rodada de negociação ou dialogo sobre as demandas dos servidores foi aberta pelo governo durante todo o desgoverno de Zema. Se houvesse compromisso efetivo com a recomposição salarial, a política teria sido implementada de forma contínua ao longo dos mandatos.”
Oito anos, três reajustes
Ao final de dois mandatos, o governo terá concedido apenas três reajustes lineares, sempre fruto de muita luta dos sindicatos e do bloco de oposição na Assembleia. Foram 10,06% em 2022, 4,62% em 2024 e 5,4% em 2026. Em 2025, não houve reajuste para a maior parte das categorias.
Sindicatos apontam que a não aplicação de recomposições referentes às inflações de 2022, 2024 e 2025 teria gerado perdas próximas de 20% apenas nesses três anos.
Receita cresce, salário não acompanha
Desde 2019, a Receita Corrente Líquida do Estado mais que dobrou, passando de R$ 53,34 bilhões para R$ 111,72 bilhões, crescimento superior a 109%. No mesmo período, a inflação acumulada foi de 45,14%.
Para as entidades sindicais, esse cenário demonstra espaço fiscal para uma recomposição mais robusta. Projeções internas apontavam expectativa entre 8,8% e 15%, especialmente após a adesão de Minas ao Propag.
Contradições políticas
A oposição na Assembleia afirma que a recomposição precisa ser tratada como obrigação constitucional anual. Também aponta incoerência entre o índice concedido aos servidores e aumentos de quase 300% concedidos ao ao próprio governador e ao alto escalão, em 2023. Parlamentares também questionam o aumento desenfreado das renúncias fiscais no governo Zema, que, em oito anos, deixou de arrecadar R$ 120 bilhões em benefícios fiscais concedidos aos seus amigos empresários.
A recomposição anunciada não encerra o debate. Ela o aprofunda!
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