Durante a gestão de Romeu Zema, Minas Gerais se tornou o terceiro estado com mais pessoas em situação de rua no país. Dados oficiais revelam escolhas políticas que aprofundam desigualdades e desmontam a proteção social.

Levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), ligado ao programa Pólos de Cidadania da UFMG, mostra que o número de pessoas vivendo em situação de rua em Minas Gerais saltou de 23,4 mil, em 2020, para 33,1 mil em dezembro de 2025. O aumento ultrapassa 40% durante o período em que Romeu Zema (Novo) governa o estado.
Com esses números, Minas ocupa o terceiro lugar no ranking nacional, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. Belo Horizonte também figura como a terceira capital com maior número de pessoas nessa condição, com 15.474 registros no CadÚnico em 2025.
Racismo estrutural e desigualdade ignorados pelo governo
O estudo da UFMG revela o perfil social dessa população, apontando que sete em cada dez pessoas em situação de rua são negras e metade não concluiu o ensino fundamental. Os dados evidenciam o impacto direto do racismo estrutural e da ausência de políticas públicas de reparação racial capazes de garantir acesso à moradia, educação e trabalho.
Especialistas avaliam que o crescimento não é um fenômeno isolado, mas resultado do desmonte de políticas sociais ao longo do governo de Romeu Zema, que comanda o Executivo mineiro desde 2019.
Orçamento encolhido e serviços desmontados
Segundo o Brasil de Fato, a assistência social – principal política pública voltada à população em situação de rua – recebe menos de 0,2% do orçamento estadual. Para 2026, o governo de Minas prevê um orçamento total de R$ 141,7 bilhões, mas destina menos de R$ 131 milhões à área.
Em entrevista à reportagem, o professor da PUC Minas e assistente social, Leonardo Koury, disse que a consequência direta é a ausência de financiamento para centros de referência, abrigos, repúblicas e serviços especializados, além da piora do atendimento nas ruas. Para ele, o descaso com a população mais vulnerável é uma marca da gestão do partido Novo em Minas Gerais.
“Em sete anos, o partido Novo, de Zema, demonstra o total desprezo aos pobres, o que recorrentemente é noticiado pelas falas públicas do governador e pelo modo de governar” afirma.
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Fundo de Combate à Miséria sob denúncias
Além do baixo orçamento, o governo Zema acumula denúncias relacionadas ao Fundo Estadual de Combate à Miséria (FEM). Em 2024, parlamentares do bloco Democracia e Luta denunciaram ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas o desvio de R$ 88 milhões do fundo para ações sem relação com o combate à pobreza.
Segundo a deputada estadual Bella Gonçalves (Psol), apenas no último ano também foi denunciado ao TCE-MG o desvio de mais R$ 350 milhões que poderiam ser utilizados para apoiar os municípios no enfrentamento do aumento da população em situação de rua. Ela destaca ainda que o Comitê de Monitoramento das Políticas para a População em Situação de Rua, exigido pelo STF, segue sem funcionar em Minas Gerais.
“Além disso, até hoje, o Comitê de Monitoramento das Políticas para a População em Situação de Rua, que é uma exigência do Supremo Tribunal Federal (STF), não está em funcionamento em Minas Gerais. O governo Zema não construiu nenhum abrigo e nenhuma política para a população em situação de rua. Muito pelo contrário, tem desviado recursos do FEM”, destaca.

Deputada Estadual Bella Gonçalves (PSOL)
Violência, saúde negligenciada e políticas equivocadas
Leonardo Koury ainda aponta que Minas está entre os estados com menores índices de atendimento da estratégia do SUS voltada à população em situação de rua. Em 2025, dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública indicam que 40 pessoas em situação de rua foram assassinadas no estado.
Mesmo diante desse cenário, o governo Zema tem ampliado investimentos em comunidades terapêuticas não científicas. Segundo Bella Gonçalves, esses espaços são frequentemente denunciados por violações de direitos, privação de liberdade, tortura e até mortes, sem responder ao crescimento da população em situação de rua.
“Muitas vezes, essas comunidades terapêuticas são espaços de violação de direitos, de privação de liberdade, de tortura e até de morte. Elas não respondem ao fenômeno do crescimento da população em situação de rua. Ou seja, o governo está investindo dinheiro nas apostas erradas e não tem escutado e construído com a população em situação de rua uma política pública séria”, afirma a parlamentar.
Discursos preconceituosos e ataque aos direitos humanos
As críticas ao governo se agravam diante das declarações públicas de Romeu Zema. Em agosto de 2025, o governador comparou pessoas em situação de rua a “carros estacionados em locais proibidos”. Meses antes, defendeu a criação de uma lei para “remover” essa população das vias públicas, falas classificadas por organizações de direitos humanos como higienistas.
Para Bella Gonçalves, Minas Gerais vive uma contradição explícita. É um dos estados com maior número de pessoas em situação de rua e também um dos que enfrentam grave déficit habitacional. Ainda assim, o governo opta por discursos violentos e pelo desvio de recursos, em vez de construir políticas baseadas em moradia, cuidado, trabalho e garantia de direitos.
Abandonados pelo governador
Os dados da UFMG, as denúncias orçamentárias, o aumento da violência e as declarações do governador compõem um mesmo quadro. Sob Romeu Zema, Minas Gerais avançou no desmonte das políticas sociais e no abandono da população mais pobre.
Os números não são estatísticas abstratas. São pessoas privadas de direitos básicos, expostas à violência e à precariedade, enquanto o governo estadual se recusa a cumprir seu papel constitucional de enfrentar a desigualdade social.
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