Classificadas pelo governador como “custos desnecessários”, as honrarias se multiplicam e evidenciam o descompasso entre discurso e prática

O governador Romeu Zema (Novo) acumula, ao longo de seus sete anos de gestão, uma série de contradições entre o que prometeu e o que efetivamente entregou. Entre elas está o compromisso público de reduzir gastos com solenidades e homenagens concedidas pelo Estado. A promessa, repetida em discursos e entrevistas, não apenas deixou de ser cumprida como acabou invertida: o governo criou novas medalhas e ampliou o rol de honrarias oficiais.
A incoerência ganha relevância no momento em que Zema se coloca como pré-candidato à Presidência e percorre o país reforçando sua narrativa de gestor austero. Em 2019, logo ao assumir o governo, ele anunciou nas redes sociais que extinguiria a maior parte das cerimônias de entrega de medalhas, mantendo apenas a tradicional Medalha da Inconfidência. Na ocasião, argumentou que “não tem sentido gastar dinheiro com tantas solenidades e homenagens”, apresentando a medida como parte de um suposto projeto de contenção de gastos públicos.
A promessa, no entanto, não se concretizou. Ao longo dos últimos anos, o governo mineiro criou novas modalidades de honrarias. O Executivo mineiro instituiu uma série de novas condecorações, como a Medalha do Mérito Gabinete Militar do Governador, cuja primeira edição ocorreu no início deste mês. Mais de 200 personalidades e instituições foram homenageadas, incluindo o próprio governador, o vice-governador Mateus Simões e secretários de Estado.
O governo Zema também criou a Medalha de Mérito Ambiental e a Moeda Comemorativa de Proteção Ambiental. Na cerimônia realizada em julho, 130 pessoas foram agraciadas, entre elas Rodrigo Gonçalves Franco, ex-presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), preso dois meses depois na Operação Rejeito, acusado de participar de esquema bilionário de corrupção envolvendo licenças ambientais para mineradoras.
A lista de novas condecorações não para por aí. Ainda neste ano pré-eleitoral, o governo instituiu a Medalha de Honra ao Mérito da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), que homenageou mais de 90 pessoas, novamente incluindo o próprio governador. E, em 2025, Zema lançou também a Medalha Ministro Alysson Paolinelli, voltada ao setor agropecuário, cuja primeira edição contemplou dez nomes, em junho.
Honrarias como palanque
As honrarias instituídas por Zema evidenciam o esforço em dar visibilidade a áreas estratégicas de sua agenda política, como a segurança pública e o agronegócio. Um outro exemplo dessa exploração política ocorreu novembro, quando o governador utilizou a repercussão da megaoperação policial no Rio de Janeiro, que resultou em mais de 120 mortes (incluindo quatro policiais), como palanque político, em uma tentativa de desviar o foco das críticas à gestão da segurança em Minas Gerais.
O contraste entre o discurso de austeridade e a prática de multiplicar homenagens oficiais escancara uma contradição que acompanha a gestão Zema desde o início. As novas medalhas, criadas justamente pelo governador que prometeu acabar com as honrarias, revelam mais do que incoerência: expõem o uso político de solenidades que ele próprio condenava, especialmente em um ano que antecede a disputa eleitoral. No fim, a promessa de enxugar gastos soa apenas como mais uma peça de marketing entre tantas outras que o governo tentou vender ao longo desses anos.




