Com a FUNED sucateada e a produção de vacinas e soros paralisada, governo Zema desmonta uma das instituições mais importantes da saúde pública mineira.

O Governo de Minas Gerais tem promovido um verdadeiro desmonte na Fundação Ezequiel Dias (FUNED), instituição pública centenária e reconhecida nacionalmente pela produção de vacinas, soros e medicamentos. Apesar de sua comprovada capacidade técnica, a FUNED enfrenta hoje um cenário de abandono, falta de autonomia e ameaças de privatização.
Servidores denunciam ataques constantes e o risco de venda da Fazenda São Judas Tadeu, localizada em Betim, onde é produzido o plasma essencial para a fabricação dos soros antiofídicos. Mesmo com a inauguração de uma nova fábrica em março deste ano, nenhuma dose de soro foi produzida até o momento — reflexo da má gestão e da ausência de investimentos efetivos do governo estadual.
ROMPIMENTO DE CONTRATO AGRAVA CRISE
A crise se aprofundou com o anúncio da rescisão do contrato para a produção da vacina contra meningite, firmado em 2022 e com validade até 2026. O acordo previa o fornecimento dos imunizantes meningite C e ACWY ao Ministério da Saúde e ao SUS. O rompimento unilateral ocorreu justamente em meio ao aumento de casos da doença em Minas, o que foi classificado por parlamentares como “um ato de irresponsabilidade e descaso com a saúde pública”.
Segundo o deputado Lucas Lasmar (Rede), autor do requerimento da audiência pública da Comissão de Direitos Humanos, realizada no dia 06/10/25, ao lado da deputada Bella Gonçalves (PSOL), presidenta da Comissão, o encerramento da parceria representa um duro golpe à sobrevivência da FUNED, que obtinha cerca de 70% de sua arrecadação com o convênio. Para ele, o objetivo do governo é claro: abrir espaço para a iniciativa privada. “A Funed está indo para o buraco com esses indicados do governo que se dizem grandes gestores. Enquanto isso, o presidente da entidade se esconde e manda apenas representantes, desrespeitando a Assembleia Legislativa”, denunciou. O parlamentar também encaminhou um dossiê com indícios de irregularidades na atual gestão ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG).
PRESIDENTE DA FUNED FALTA À AUDIÊNCIA E É CONVOCADO
A ausência do presidente da FUNED, Felipe José Fonseca Attiê, foi duramente criticada. O gestor foi convocado oficialmente a prestar esclarecimentos em nova reunião e poderá responder por crime de responsabilidade caso não compareça, conforme artigos 306 e 307 do Regimento Interno da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
“Em que mundo o presidente da Funed vive? Pelas declarações que dá, parece que vive em Nárnia. E também, pelo que sai na imprensa, tudo é lindo. Na hora de anunciar, todo mundo quer sair na foto, mas na hora da audiência pública para apontar os erros, eles desaparecem. No serviço público temos a presunção de boa fé, mas, quando vamos investigar, o discurso é totalmente diferente da realidade”, questionou o deputado Lucas Lasmar.

Deputado Estadual Lucas Lasmar (Rede)
Durante o debate, deputados e representantes sindicais denunciaram o sucateamento da instituição e o autoritarismo da atual gestão, marcada pela falta de diálogo e perseguição a servidores. “A crise da Funed não é uma crise, é um projeto”, resumiu Érico de Moraes Colen, diretor do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde (Sind-Saúde/MG).
DENÚNCIAS DE PRIVATIZAÇÃO E AMEAÇAS À SOBREVIVÊNCIA DA INSTITUIÇÃO
As deputadas Bella Gonçalves (PSOL) e Beatriz Cerqueira (PT) também reforçaram o alerta sobre o risco de privatização. Segundo elas, a política do governo Zema tem sido marcada pelo desmonte e pela entrega de serviços públicos à iniciativa privada.
“Se querem privatizar a Copasa e já estão privatizando a educação e o Sisema (Sistema Estadual do Meio Ambiente) por meio de consultorias contratadas, o que os impediria de tentar privatizar a Funed?”, questionou Beatriz Cerqueira.

Deputada Estadual Beatriz Cerqueira (PT)
A parlamentar lembrou ainda que tramita na Assembleia o projeto do Gehosp (Serviço Social Autônomo de Gestão Hospitalar), considerado um modelo de privatização disfarçada da saúde pública mineira.
Por sua vez, Bella Gonçalves endossou as críticas.
“A Funed é presidida atualmente por uma pessoa que não entende nada do SUS. A convocação é um instrumento legítimo de fiscalização pelo Parlamento mineiro para que os gestores prestem contas à população quando as tentativas de diálogo já se esgotaram”, disse.

Deputada Estadual Bella Gonçalves (PSOL)
Lucas Lasmar ainda destacou que a Fazenda São Judas Tadeu, onde é produzido o plasma necessário para os soros, consta na lista de imóveis que podem ser cedidos à União ou até vendidos com 45% de desconto sob o pretexto de “pagamento” da dívida de Minas, o que demonstra mais um indício de ameaça ao patrimônio público da FUNED.
SERVIDORES RESISTEM EM DEFESA DA SAÚDE PÚBLICA
Os trabalhadores da FUNED, que há décadas dedicam suas vidas à pesquisa e à produção de insumos vitais, denunciam a tentativa de transformar a fundação em um braço da iniciativa privada.
Mesmo diante das críticas, representantes enviados pela atual gestão à audiência preferiram não responder às denúncias e afirmaram apenas que as ações visam “dar sustentabilidade à instituição”. Na prática, porém, a produção segue paralisada, a autonomia da fundação está ameaçada e o orgulho mineiro que é a FUNED corre o risco de ser desmontado por completo.
LUTA POR AUTONOMIA E VALORIZAÇÃO
Na Assembleia Legislativa, parlamentares da oposição e movimentos sociais seguem mobilizados pela autonomia da FUNED, pela valorização dos profissionais e pela retomada da produção de vacinas e soros. A defesa é clara: garantir que a saúde pública mineira não seja refém da lógica de mercado e que a FUNED continue sendo uma instituição pública, forte e referência nacional.
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