Transferência de crianças para o Hospital João XXIII acende alerta sobre fechamento de leitos, precarização da rede Fhemig e possível repetição de casos de sucateamento já vistos em Minas Gerais.

A crise aberta com o fechamento da UTI pediátrica do Hospital Infantil João Paulo II, em Belo Horizonte, é mais um capítulo do desmonte da saúde pública em Minas Gerais. A reforma da Unidade de Terapia Intensiva levou à transferência de 16 pacientes pediátricos para o Hospital João XXIII. O resultado imediato foi a redução de seis leitos pediátricos na rede, além da improvisação de macas e poltronas em corredores para que acompanhantes pudessem descansar, reduzindo leitos e sobrecarregando ainda mais uma unidade que já sofre com alta demanda de urgência e emergência.
A reunião na tarde desta segunda-feira (1º/9/25), foi um desdobramento de visita técnica da Comissão de Administração Pública, ocorrida na última sexta (29), visando apurar e acompanhar a transferência, além de fiscalizar o progresso das intervenções.
Deputados da Comissão de Direitos Humanos da ALMG e membros do Bloco Democracia e Luta, Bella Gonçalves, Beatriz Cerqueira e Lucas Lasmar denunciam que a medida repete o roteiro já visto no Hospital Maria Amélia Lins, onde 60 leitos foram desativados para obras e até hoje não foram reabertos. O risco, segundo eles, é que a reforma no João Paulo II esconda o verdadeiro objetivo: esvaziar gradualmente a rede da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) para abrir caminho a privatizações.
Preocupação com sucateamento da Fhemig
A presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputada Bella Gonçalves (Psol), classificou a gravidade do caso, sobretudo por se tratar de crianças:
“Imagina a angústia dos pais com o adoecimento de um filho. Imagina como isso é potencializado quando a criança é deslocada para outro hospital por causa de uma obra. Quando ações repentinas acontecem, isso pode sinalizar outra coisa.”

Deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL)
A deputada ainda acrescentou, “Aqui em Minas Gerais o único trem que prospera tem sido só da privatização e do sucateamento da Saúde, o avanço do SUS não tem prosperado muito pelo contrário hoje nós temos um grande uma grande falta do governo de Minas na entrega dos hospitais regionais.”
Por sua vez, o deputado Lucas Lasmar (Rede), membro titular da Comissão de Saúde, alertou que a situação ameaça comprometer o atendimento de urgência no Estado e destacou que, em função desse tipo de medida, o Hospital João XXIII tem lidado com uma sobrecarga imensa:
“Não podemos permitir isso, o exemplo claro que aconteceu com o Hospital Maria Amélia Lins, de transformar o Hospital João XXIII em uma oportunidade de fazer cirurgias eletivas. O João XXIII é especializado em urgência e emergência de alta complexidade”, afirmou

Deputado Estadual Lucas Lasmar (Rede)
A deputada Beatriz Cerqueira criticou o governo que tenta minimizar a movimentação, dizendo que não gerou impacto no atendimento infantil:
“Toda transferência, todo fechamento tem impacto. O João XXIII tem sido sempre aquele que recebe pacientes depois do fechamento de uma ala, de uma área ou de um hospital”, advertiu a deputada para a sobrecarga do HPS.

Deputada Estadual Beatriz Cerqueira (PT)
Falta de transparência com servidores e pacientes
Profissionais do hospital também denunciaram a ausência de diálogo por parte da gestão. A técnica de enfermagem Ana Paula Tavares disse ter descoberto a reforma apenas ao ver a movimentação de pacientes sendo transferidos, “Como fazem isso sem comunicar a todos? A UTI está interligada a tudo. Na urgência mesmo, recebemos pacientes graves que podem precisar da unidade.”.
O que está em jogo?
A promotora de Justiça Josely Ramos Pontes abriu procedimento para apurar o caso, destacando que há risco de a reforma ser usada como justificativa para o sucateamento da rede pública. “Esse cenário de sucateamento e precarização na Fhemig nos traz a preocupação de que uma obra para melhoria vá para outro caminho depois”, destacou.
Parlamentares e trabalhadores garantiram que vão acompanhar de perto o andamento das obras. Beatriz Cerqueira já anunciou nova visita ao hospital no dia seguinte ao prazo de entrega para verificar se os leitos de UTI pediátrica voltarão a funcionar. “Estamos num esforço para impedir o desmonte da rede Fhemig (Fundação Hospitalar de Minas Gerais)”, reforçou Beatriz Cerqueira.
O episódio expõe, mais uma vez, o descaso do governo Zema com a saúde pública mineira: fechamento de leitos, improviso no atendimento, servidores sem informações e risco concreto de desmonte da Fhemig. Enquanto isso, quem paga o preço da insegurança e da precarização são as crianças e suas famílias.
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