
A implantação da nova Central de Operações para Regulação Estadual do SUS (Core Saúde MG), promovida pelo Governo Zema para substituir o SUSFácil, voltou a ser alvo de duras críticas durante audiência pública da Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Parlamentares, profissionais da saúde, gestores municipais e familiares de pacientes relataram falhas graves no sistema, demora na liberação de leitos e mortes que, segundo os participantes, podem estar relacionadas aos problemas enfrentados desde a entrada em operação da plataforma.
O caso que mais comoveu a audiência foi o da psicóloga Rebeca Cardoso Tenente Molina, 32 anos, da cidade de Mar de Espanha (Zona da Mata), que morreu no dia 6 de junho, após passar cinco dias internada em São João Nepomuceno à espera uma vaga de UTI. Em depoimento emocionado, a irmã da paciente afirmou que médicos não conseguiam registrar adequadamente as informações porque o sistema apresentava falhas justamente nos primeiros dias de funcionamento.
“O meu sentimento é de que a minha irmã foi um teste na implementação desse sistema”, disse emocionada a irmã gêmea de Rebeca, a advogada Sâmela Cardoso Tenente. “Eu vi os médicos desesperados, pois tentavam alimentar o sistema e ele não respondia proporcionalmente à gravidade do quadro da minha irmã”, contou.
Segundo os deputados Lucas Lasmar (Rede) e Doutor Jean Freire (PT), responsáveis por solicitar a audiência, os problemas não são casos isolados. Jean Freire apresentou relatos de outros pacientes que morreram enquanto aguardavam transferência hospitalar pelo novo sistema, além de informar que ainda existem pacientes esperando por vagas há semanas em diferentes regiões do Estado.
Sistema de R$ 23 milhões implantado sem testes
Desde a implantação da plataforma, em 19 de maio deste ano, prefeitos, secretários municipais de saúde, hospitais e trabalhadores do setor relatam dificuldades como lentidão no processamento das solicitações, falhas no sistema e demora na transferência de pacientes.
Durante a reunião, o deputado Lucas Lasmar afirmou que recebeu um relatório com mais de 20 páginas apontando inconsistências logo nos primeiros dias de funcionamento da Core Saúde MG.
Para o parlamentar, o Governo de Minas colocou em funcionamento um sistema milionário sem realizar os testes necessários.
“Um sistema de R$ 23 milhões foi implantado de forma precoce, sem operação de testes”, criticou o deputado durante a audiência.
Entre as reclamações apresentadas estão:
- lentidão no processamento das solicitações;
- dificuldades para localizar e aceitar pacientes;
- falhas na migração de dados;
- encaminhamento para hospitais sem o serviço necessário;
- indicação de leitos inexistentes;
- demora nas respostas da central;
- dificuldade de contato telefônico com a Core;
- longas esperas para autorização de transferências.
As críticas também partiram do Conselho Estadual de Saúde
A presidente do órgão, Lourdes Aparecida Machado, afirmou que a substituição do SUSFácil deveria ter ocorrido de forma gradual, sobretudo quanto aos serviços de urgência e emergência, começando por algumas macrorregiões antes da expansão para todo o Estado.
Ela também destacou que o conselho vem recebendo diversas denúncias relacionadas ao funcionamento da plataforma, reforçando que a implementação ocorreu sem a preparação adequada da rede.
Pressão sobre o Governo aumenta
Ao final da audiência, o deputado Doutor Jean Freire anunciou novos encaminhamentos para acompanhar a implantação da Core Saúde MG, incluindo monitoramentos periódicos, capacitação permanente dos profissionais, levantamento de processos judicializados e nova visita técnica à Central de Operações.
A audiência reforçou a pressão sobre o Governo Zema, que enfrenta questionamentos crescentes sobre a forma como implementou a nova plataforma de regulação hospitalar. Para parlamentares da oposição e representantes da área da saúde, a modernização do sistema não pode ocorrer à custa da segurança dos pacientes, sobretudo quando há relatos de falhas que podem ter contribuído para atrasos no atendimento e até mortes evitáveis.




