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Após 11 anos sem reparação, Samarco ameaça despejo e deputados cobram ação do Estado

Mesmo após mais de uma década do rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, atingidos denunciam pressão da Samarco e cobram ação efetiva do governo de Minas para garantir o direito à moradia

Famílias ameaçadas de despejo expõem falhas na reparação da tragédia de Mariana
Foto: Willian Dias

Onze anos após o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, famílias atingidas pelo crime voltaram a denunciar a ausência de uma reparação efetiva e o agravamento da insegurança em que vivem. Durante audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), no dia 02/06, representantes de cerca de 40 famílias de Barra Longa relataram enfrentar a ameaça de despejo, além do risco de perderem o auxílio-moradia.

O caso evidencia o abandono das famílias em meio ao impasse que atravessa mais de uma década sem solução definitiva. Barra Longa foi o único município que teve sua área urbana diretamente atingida pela lama de rejeitos, e moradores afirmam que continuam pagando o preço de um desastre-crime cujas consequências sociais, econômicas e psicológicas permanecem presentes no cotidiano das famílias.

“A gente precisa de uma garantia de que não vamos para a rua”, resumiu Simone Maria da Silva, representante do Quilombo de Gesteira. Segundo ela, as propostas apresentadas pela mineradora não atendem às necessidades dos atingidos. “A proposta que fizeram para eu reconstruir a minha casa foi R$ 8 mil”, afirmou durante a audiência.

Simone Silva rejeitou o chamado Eixo 4, deliberação técnico-jurídica que estabelece as diretrizes e os critérios para o reassentamento coletivo das famílias de Barra Longa que perderam ou tiveram moradias severamente afetadas pela lama.

Reparação sem resposta e moradias sem garantia

Diante do impasse, os moradores agora vêm sendo notificados de que podem perder o auxílio-moradia pago pelas empresas para custear os aluguéis dos imóveis onde hoje residem. Os relatos apresentados à ALMG apontam que diversas famílias permanecem dependentes do auxílio.

Moradora de Barra Longa, Márcia Pedroso afirmou que sua antiga residência foi demolida em 2016 e que, desde então, sua família acumula perdas e dificuldades. Segundo ela, o pai faleceu em 2019 e três irmãos estão com problemas psicológicos. Se perderem o auxílio-moradia, eles não têm dinheiro para alugar outro lugar para viver. Ela também criticou a proposta de reassentamento apresentada. “A casa que querem construir para a gente seria em área de risco”, declarou.

Críticas ao Estado e à atuação das mineradoras

A situação levou parlamentares e representantes dos atingidos a fazerem duras críticas à condução do processo de reparação. Autora do requerimento da audiência, a deputada Beatriz Cerqueira (PT) classificou como absurdo que famílias que perderam suas casas estejam sendo notificadas pela própria empresa responsável pelo desastre-crime.

“Quando eu soube pelo que vocês estão passando, eu não acreditei. Depois de tudo o que vocês sofreram. Aqui em Minas Gerais, o crime compensa”, afirmou a parlamentar.

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Deputada Estadual Beatriz Cerqueira (PT)

O deputado Leleco Pimentel (PT) também criticou a situação e associou as ameaças de despejo à falta de responsabilização efetiva das empresas envolvidas.

“Os milhões que serviram para matar são os mesmos milhões que servem para despejar”, declarou.

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Deputado Estadual Leleco Pimentel (PT)

As críticas não se limitaram às mineradoras. Integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Ana Martins apontou omissão institucional diante da situação enfrentada pelas famílias. “O Estado não só caminha junto com a mineradora como se ajoelha para ela”, afirmou durante a reunião.

A percepção de abandono também foi compartilhada pela vereadora Valéria Aparecida da Silva, de Barra Longa. Segundo ela, os moradores não receberam o acompanhamento necessário para lidar com os impactos da tragédia. “A lama não matou ninguém em Barra Longa no dia do rompimento, mas há 11 anos ela mata na cidade”, disse, relacionando o desastre-crime a problemas de saúde e sofrimento mental que persistem desde 2015.

Governo é cobrado por respostas concretas

Durante a audiência, Beatriz Cerqueira informou que havia encaminhado, em maio, comunicados ao Ministério Público, à Defensoria Pública e ao Governo de Minas cobrando providências para o problema enfrentado pelas famílias. Segundo a deputada, não houve resposta às demandas apresentadas.

A parlamentar anunciou que irá solicitar às instituições envolvidas que intercedam junto à Samarco para suspender as notificações e qualquer ordem de despejo até que o diálogo seja retomado e uma solução efetiva seja construída para os moradores de Barra Longa.

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