
O Dia do Trabalhador é marcado, em Minas Gerais, por desvalorização e denúncias no funcionalismo público. Ao longo dos últimos anos, a gestão de Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD) acumulou conflitos com diversas categorias, que apontam perdas salariais, precarização das condições de trabalho e falta de diálogo.
Desde 2019, servidores denunciam congelamento de salários, reajustes abaixo da inflação e avanço de políticas que fragilizam o serviço público. A defasagem salarial ultrapassa 70% em várias carreiras, enquanto categorias relatam aumento da sobrecarga, adoecimento e redução de direitos .
Educação: greve, salários defasados e desmonte
A educação pública mineira se tornou o principal símbolo da crise entre servidores e o governo Zema/Simões. Trabalhadores da rede estadual denunciam perdas salariais acumuladas, precarização das condições de trabalho e ausência de diálogo com o Executivo.
A principal reivindicação da categoria é a recomposição salarial de 41,83%, referente às perdas acumuladas entre 2019 e 2025. Enquanto o governo concedeu um pífio reajuste de 5,4% com impacto praticamente nulo diante do nível de defasagem.
Segundo o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), nos últimos sete anos e meio, o governo Zema achatou o salário e com o argumento da proporcionalidade, isto é, o pagamento de apenas parte do Piso referente às 24 horas semanais e não o valor integral das 40 horas, transformou o Piso em teto. “Ao ignorar o Piso Nacional, o governo não apenas congelou os salários, mas reduziu o poder de compra da categoria, transformando o trabalho docente em uma atividade cada vez mais precarizada”, afirma a entidade.
A situação ajuda a explicar o esvaziamento da carreira. Durante audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), professores relataram que muitos profissionais estão deixando a sala de aula diante dos baixos salários e da falta de perspectivas. “As pessoas estão preferindo rodar em aplicativos de transporte a dar aula”, afirmou a coordenadora-geral do Sind-UTE/MG, Denise Romano.
Os trabalhadores também denunciam o avanço de políticas que fragilizam a escola pública. Entre os principais pontos estão:
- o projeto de concessão de 95 escolas à iniciativa privada, por meio de parceria público-privada com duração de 25 anos;
- o Programa Somar, que previa a gestão de escolas por organizações privadas;
- o Programa Mãos Dadas, que transfere escolas estaduais para municípios sem garantia de estrutura adequada;
- e a tentativa de implantação de escolas cívico-militares.
Em março, em meio à insatisfação com o reajuste proposto pelo governo Zema/Simões, a categoria entrou em greve. A pauta também incluía o pagamento de verbas retidas, concessão de promoções por escolaridade, cumprimento do piso nacional do magistério e nomeação de aprovados em concursos públicos.
Leia mais: Leilão da Educação: Zema e Simões entregam 95 escolas públicas para empresa privada
Universidades: desvalorização, crise e descumprimento de acordo
No ensino superior, o cenário é igualmente crítico. Professores da Uemg e da Unimontes denunciam o descumprimento de um acordo firmado em 2016 e homologado pela Justiça, que previa a incorporação de gratificações aos salários.
As perdas salariais chegam a 82,9%, segundo representantes docentes. Além disso, a estrutura de remuneração – altamente dependente de gratificações – faz com que professores percam renda ao se afastarem para qualificação, como cursos de doutorado.
A situação é agravada por cortes orçamentários, precarização dos vínculos e salários extremamente baixos. Em alguns casos, professores temporários chegam a receber menos de R$ 1 mil por 20 horas semanais.
Outra demanda da categoria é a ampliação do regime de dedicação exclusiva. Atualmente, apenas 16% dos docentes recebem o benefício em Minas Gerais, enquanto em estados como Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, esse percentual varia entre 70% e 90%.
Segundo a reitora da Uemg, Lavínia Rodrigues, a dedicação exclusiva é parte fundamental do trabalho acadêmico nas universidades e ressaltou que o adicional pago atualmente não ultrapassa R$ 2.103,27.
Salários abaixo do mínimo e distorções estruturais
Levantamento realizado pelo jornal Estado de Minas aponta que mais de 40 mil servidores estaduais recebem vencimentos abaixo do salário mínimo em Minas Gerais. Grande parte está concentrada na área educacional, incluindo professores universitários, mas o problema se espalha por diferentes secretarias, e atinge servidores ativos e aposentados.
Entre os casos mais emblemáticos estão as Auxiliares de Serviços da Educação Básica (ASBs), responsáveis por funções essenciais como limpeza, alimentação e organização das escolas. Ao longo dos últimos anos, esses trabalhadores – em sua grande maioria mulheres – ficaram, inclusive, impedidos de acessar direitos básicos como aposentadoria integral e benefícios previdenciários.
Após forte mobilização da oposição e do sindicato, a ALMG aprovou, em maio de 2025, uma emenda proibindo que as ASBs recebam menos do que um salário-mínimo. A medida foi considerada uma correção de uma distorção histórica, mas também evidenciou o nível de desvalorização existente na educação pública mineira. Outra vitória da categoria foi o adicional de insalubridade, conquistado em março deste ano. Ambas as iniciativas foram propostas pela deputada Beatriz Cerqueira (PT).
Saúde sob pressão: defasagem, exaustão e risco de colapso
Na saúde, trabalhadores da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) denunciam sobrecarga, falta de profissionais e escassez de insumos básicos. A situação compromete o funcionamento de unidades e amplia a pressão sobre equipes reduzidas.
Segundo a diretora-executiva do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde), Neuza Freitas, profissionais acumulam funções e chegam a assumir dois setores ao mesmo tempo, o que, “impacta diretamente a saúde do trabalhador”. “Chegou a uma situação insustentável”, disse em entrevista ao EM. Enfermeiros relatam jornadas exaustivas e um clima de instabilidade constante, agravado por contratos que vencem sem renovação.
A política salarial é apontada como um dos principais fatores da crise. Segundo o Sind-Saúde, os servidores acumulam mais de 20% de perdas inflacionárias ao longo da gestão Zema, o que reduziu significativamente o poder de compra da categoria.
Para o diretor do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG), Cristiano Albuquerque, os salários defasados e os reajustes abaixo da inflação dificultam não apenas a admissão, mas também a permanência dos profissionais. “Hoje, o Estado tem o maior déficit salarial do setor de saúde. A perda para a inflação chega a 36%. Com o aumento da contribuição previdenciária, esse déficit chega a 40%”, destacou Albuquerque em matéria publicada no jornal Estado de Minas.
A categoria também criticou o reajuste pífio concedido pelo governo, classificando-o como insuficiente para recompor perdas históricas e desconectado da realidade dos trabalhadores. Em entrevista ao jornal O Tempo, o presidente do Sindpros, Carlos Martins, afirmou que o mísero reajuste de 5,4% concedido por Zema não representaria ganho real para parte dos trabalhadores. Segundo ele, no caso de profissionais que recebem complementação para atingir o piso da enfermagem, o aumento seria compensado pela retirada de abonos.
A crise levou à deflagração de greve em março. Além do reajuste, a categoria denunciou descontos indevidos, retirada de direitos e a falta de diálogo com a administração estadual.
Segurança pública: falta de estrutura, déficit de efetivo e perda salarial
Na segurança pública, policiais civis, militares e penais denunciam déficit de efetivo, baixos salários e precariedade estrutural. Entre os problemas relatados estão falta de equipamentos, viaturas sem combustível e delegacias sem condições adequadas de funcionamento.
Levantamento com base em dados do Portal da Transparência revela que a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) acumula um déficit total de 6.455 servidores, sendo 1.013 escrivães e 5.442 investigadores. O número representa uma defasagem de 45,5%. Na Polícia Militar, o déficit é de 15.000 profissionais. Nos bombeiros, faltam pelo menos 2.600 trabalhadores, segundo dados dos sindicatos das categorias. A carência de pessoal é apontada como fator que compromete o trabalho nas ruas e as investigações, ampliando a sobrecarga dos profissionais em atividade.
A defasagem salarial é outro problema enfrentado pelos servidores. O presidente do Sindicato dos Escrivães e Oficiais Investigadores de Polícia Civil de Minas Gerais (Sindep-MG), Marcelo Horta, afirma que a categoria acumulou perdas inflacionárias próximas de 45% na última década, percentual semelhante ao déficit de efetivo.
“O policial está trabalhando dobrado e recebendo a metade. Hoje, nós estamos tendo praticamente um policial trabalhando para dois. O principal mal que isso causa é o sacrifício e o adoecimento (do servidor). No ano passado, nós perdemos mais policiais por autoextermínio do que no combate com criminosos”, destacou Horta.
Já levantamento do Sindpol aponta que as perdas inflacionárias acumuladas da categoria já chegam a 50%. “O Governo Zema gosta de falar em “gestão eficiente” e “contas no azul”. Mas, enquanto o Executivo ostenta números positivos para o mercado e gasta R$ 1,5 milhão em combustível de avião para viagens políticas, o servidor da segurança pública amarga o quarto pior salário do país.”, afirma o Sindicato em matéria publicada no site da entidade.
A crise tem se refletido em mobilizações e protestos de servidores. Em diferentes momentos, categorias da segurança realizaram atos públicos e adotaram medidas de pressão institucional diante da falta de avanços nas negociações com o governo estadual.
Desmonte ambiental: falta de estrutura e carreiras desvalorizadas
A insatisfação atinge também os servidores do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SISEMA), que denunciam falta de estrutura, redução de equipes, ausência de concursos públicos e forte desvalorização das carreiras.
Segundo a categoria, o quadro é marcado por salários defasados em mais de 85% e pelo funcionamento com efetivo reduzido, o que compromete diretamente a fiscalização ambiental e a proteção dos recursos naturais no estado. Há ainda denúncias de que alguns servidores recebem remunerações inferiores ao salário-mínimo, além da ausência de adicionais previstos em lei e do descumprimento de acordos de reestruturação de carreira firmados anteriormente.
Comunicação pública sob ataque: denúncias de censura e desvalorização
Jornalistas e servidores da Empresa Mineira de Comunicação (EMC), responsável pela TV Minas e pela Rádio Inconfidência, denunciaram um cenário de censura, assédio moral e uso político dos veículos públicos durante a gestão Zema/Simões.
Os profissionais apontam o enfraquecimento da estrutura interna da empresa, com redução do quadro de servidores efetivos por meio de demissões e programas de desligamento voluntário.
Relatos de assédio moral e adoecimento também fazem parte das denúncias. Trabalhadores afirmam terem sido afastados de funções, sofrerem perseguições internas ou terem suas atividades esvaziadas após divergências com a linha editorial imposta. Paralelamente, instâncias de controle, como a Comissão Editorial e o Conselho Curador, teriam sido esvaziadas ou deixado de funcionar regularmente, comprometendo mecanismos de transparência e governança.
Privatizações, cortes de direitos e tensão permanente
Outro eixo de conflito envolve propostas de privatização e mudanças estruturais no Estado. A sanha privatista desse (des)governo sobre Copasa, Gasmig e Cemig ameaça milhares de servidores, que enfrentam a pressão de possíveis demissões em massa, perda de estabilidade e deterioração das condições de trabalho.
Servidores também criticam a postura do governo em relação a direitos básicos do funcionalismo. Episódios como vetos a propostas voltadas à proteção de servidoras vítimas de violência reforçam a percepção de distanciamento entre a gestão estadual e as demandas dos trabalhadores. Embora parte dessas medidas tenha sido revertida após mobilização parlamentar, permanecem entraves que dificultam o acesso efetivo a direitos.
Diante desse cenário, o funcionalismo público tem intensificado mobilizações, com protestos e articulações políticas em defesa da valorização profissional, da manutenção de direitos e do papel do Estado na garantia de serviços públicos. O clima é de tensão permanente, marcado pela insegurança quanto ao futuro das carreiras e das próprias estruturas públicas em Minas Gerais.
Neste 1º de maio, Dia do Trabalhador, o cenário em Minas Gerais expõe que a luta dos servidores vai além de salários: trata-se da defesa de direitos, da dignidade no trabalho e da própria existência de um serviço público forte e comprometido com a população.




