Debate do Sempre Vivas na Assembleia apontou aumento dos casos, falhas institucionais e a urgência de políticas públicas estruturais para enfrentar a violência de gênero

“Mutilada; asfixiada; espancada; queimada; estrangulada”. As palavras, extraídas de reportagens publicadas entre 2015 e 2025, foram apresentadas durante o ciclo de debates “Educar, decidir, efetivar: bases para enfrentar o feminicídio e as violências contra as mulheres e garantir direitos”, realizado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) dentro da programação do Sempre Vivas 2026. Mais do que uma sequência de termos, elas revelam o grau de brutalidade que marca os crimes contra mulheres no país.
Durante o encontro, especialistas alertaram para o crescimento da violência de gênero e para a incapacidade das políticas existentes de interromper essa escalada. A professora da Unimontes e coordenadora do Observatório Norte-Mineiro de Violência de Gênero, Cláudia Maia, foi direta ao diagnosticar o cenário: segundo ela, “o que se observa é uma verdadeira guerra contra as mulheres.”
O problema atravessa todos os espaços sociais. Feminicídios acontecem dentro de casa, nas ruas, em escolas e locais de trabalho. A pesquisadora ressaltou que os níveis de crueldade também chamam atenção, com ataques direcionados a partes do corpo associadas ao feminino, como o rosto. “Esses homens buscam atingir aquilo que marca o feminino. É um crime de ódio ao feminino”, afirmou.
Segundo estado que mais mata mulheres
Segundo dados consolidados de 2025 e do início de 2026, Minas Gerais mantém a vergonhosa posição de segundo estado com maior número absoluto de feminicídios no Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo.
O cenário em 2026 é ainda mais alarmante: apenas nos dois primeiros meses deste ano, o estado registrou 32 feminicídios, um salto de 33% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Esse aumento ocorre enquanto o governo estadual é criticado por um “limbo” nas políticas públicas. Especialistas apontam que a recusa da gestão Zema em aderir ao Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios isola Minas de recursos e estratégias federais, deixando as mineiras à própria sorte.
Redes de misoginia e ausência de prevenção ampliam o problema
Durante o debate, especialistas também apontaram a expansão de comunidades misóginas na internet como um fator que contribui para o aumento da violência. Grupos associados às chamadas comunidades Redpill e Incel disseminam discursos de ódio contra mulheres e reforçam a ideia de dominação masculina.
Para Cláudia Maia, conter esse tipo de mobilização é parte essencial das políticas de prevenção.
A deputada Ana Paula Siqueira (Rede), presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, lembrou ainda episódios recentes que demonstram como esses discursos atravessam o cotidiano. Ela citou o caso de um estupro coletivo cometido por adolescentes no Rio de Janeiro, no qual um dos envolvidos usava uma camiseta com frases associadas à comunidade Redpill.
“Quando um desses jovens chega à delegacia, ele está vestido com uma camisa, cujo dizeres remetem ao “lema” atribuído à comunidade Redpill: não se arrepender de nada”, lamenta

Deputada Estadual Ana Paula Siqueira (Rede)
O episódio ilustra como narrativas de misoginia têm circulado entre jovens e se transformado em práticas violentas.
Transfeminicídio e apagamento institucional
Outro ponto levantado no ciclo de debates foi a invisibilização da violência contra mulheres trans. A pesquisadora em políticas públicas e direitos humanos Anna Tulie chamou atenção para a ausência de dados confiáveis sobre esses crimes.
Segundo ela, as instituições de segurança pública falham no registro de assassinatos de mulheres trans, ignorando identidades que fogem à cisnormatividade. Esse processo, afirmou, acaba institucionalizando o apagamento dessas vítimas.
A pesquisadora defendeu a criação de um sistema único de segurança capaz de integrar e padronizar dados sobre violência de gênero, incluindo recortes raciais. Atualmente, cerca de 80% das pessoas trans assassinadas são negras, o que evidencia a sobreposição entre racismo, transfobia e violência de gênero.
Tulie também recordou o caso de Alice Martins Alves, mulher trans de 33 anos espancada na Savassi, em Belo Horizonte, em outubro de 2025. Alice morreu após receber alta hospitalar com uma fratura interna não tratada que gerou uma infecção generalizada.
Para a pesquisadora, tanto o sistema de saúde quanto o de segurança falharam no caso. As investigações só avançaram depois que um vídeo do pai da vítima denunciando negligência institucional viralizou nas redes sociais.
Educação e políticas públicas são apontadas como caminhos
Na última mesa do ciclo de debates, especialistas defenderam que a educação é o instrumento mais eficaz para enfrentar a violência de gênero.
A pesquisadora da Universidade de Brasília Aline Xavier explicou que relações entre homens e mulheres ainda são estruturadas por scripts culturais que associam virilidade masculina ao poder e confinam as mulheres ao espaço doméstico. Esse modelo gera frustrações e distúrbios emocionais que podem se transformar em violência.
Segundo ela, a superação desse quadro passa pelo letramento de gênero e pelo reconhecimento do cuidado como responsabilidade coletiva. “A vergonha tem que mudar de lado: as mulheres sentem vergonha por sofrer violência; e os homens não sentem por perpetrarem essa violência”, afirmou.
A psicóloga Hilda Morais também apontou a necessidade de formação de professores em temas como gênero, direitos humanos e protocolos de proteção, algo ainda escasso nas escolas.
Desigualdade política limita avanços
Outro obstáculo apontado durante o debate é a baixa presença feminina nos espaços de poder. Apesar de representarem mais de 52% da população brasileira, as mulheres ocupam apenas 18,1% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 19,7% no Senado.
Segundo a presidenta do Ipea, Luciana Servo, essa desigualdade influencia diretamente a formulação de políticas públicas, que continuam sendo elaboradas majoritariamente por homens brancos.
O Brasil ocupa atualmente a 133ª posição no ranking mundial de representação feminina no parlamento, cenário que evidencia a distância entre a composição da sociedade e a estrutura do poder político.
Diante desse quadro, especialistas defendem ampliar as cotas de candidaturas femininas nos partidos de 30% para 50% e garantir maior presença de mulheres nos espaços de decisão.




