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Trabalhadores desafiam o autoritarismo de Zema contra o fim da consulta popular para privatização da Copasa

Audiência pública reuniu milhares em defesa das estatais mineiras e do direito da população decidir o futuro do saneamento

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Foto: Ramon Bitencourt

Entoando gritos de protesto, cerca de 6 mil trabalhadores da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) ocuparam o Auditório José Alencar e o Espaço Democrático José Aparecido de Oliveira, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), na quarta-feira (22/10/25). A audiência pública da Comissão do Trabalho debateu a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 24/23, de autoria do governador Romeu Zema (Novo), que busca retirar da Constituição estadual a obrigatoriedade de realização de referendo popular para privatizar empresas públicas estratégicas. Neste momento, o foco é a Companhia de Sanestamento de Minas Gerais (Copasa).

Enquanto Romeu Zema (Novo) insiste em vender o patrimônio público mineiro, cresce o movimento de resistência, que denuncia os impactos sociais e econômicos da privatização da Copasa.

A audiência pública, requerida pelos parlamentares do bloco Democracia e Luta, deu voz ao ato convocado pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos de MG (Sindágua/MG). Para o movimento sindical, o dia foi histórico. “Nós estamos falando da maior empresa pública de saneamento do país. A Copasa é essencial para a população e qualquer tentativa de venda coloca em risco direitos básicos. Privatizar é colocar o lucro acima da vida”, afirmou Eduardo Pereira, presidente do Sindágua.

“É uma demonstração de força dos trabalhadores e da sociedade contra o desmonte do patrimônio público”, afirmou Jairo Nogueira, presidente da CUT-MG, lembrando que 66% da população mineira é contra a retirada da consulta popular para privatização.

Oposição denuncia tentativa de calar o povo

A PEC 24/23 ou “PEC do Cala a Boca” é uma manobra do governo para impedir que a população decida o destino das estatais mineiras. O deputado Betão (PT), presidente da Comissão do Trabalho, alertou que a tentativa de privatizar a Copasa repete experiências fracassadas no Brasil e no mundo, servindo apenas aos interesses dos bancos e do mercado financeiro.

“A experiência de privatização de empresas de saneamento não deu certo em lugar nenhum. Em vários países e municípios, essas empresas estão sendo reestatizadas. É um absurdo que Minas siga esse mesmo caminho, atendendo apenas aos interesses dos bancos.”

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputado Estadual Betão (PT)

A deputada Bella Gonçalves (Psol) destacou que a Copasa é referência em sustentabilidade e saúde pública, responsável por erradicar doenças como a xistose e levar saneamento a regiões historicamente abandonadas. A parlamentar também prometeu acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) contra a PEC 24/2023, que retira a exigência da realização de um referendo popular para a privatização da Copasa.

“A privatização não tem relação com falta de investimento. É um retrocesso e uma tentativa inconstitucional de calar o povo. Se for preciso, levaremos o tema ao STF”.

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputada Estadual Bella Goncalvs (Psol)

A parlamentar lembrou que a empresa tem R$ 28 bilhões em investimentos garantidos – R$ 17 bilhões de seu próprio plano e R$ 11 bilhões de reparações por Mariana e Brumadinho.

A deputada Beatriz Cerqueira (PT) classificou a mobilização como “uma das maiores que a ALMG já recebeu” e defendeu uma vigília permanente na Casa até a retirada da PEC da pauta.

“Essa Assembleia precisa ser de todos nós, um lugar de vigília permanente. Não dá para voltar só na semana que vem, daqui dois ou três dias. Agora é o tempo inteiro. Porque é só a pressão de fora para dentro que pode nos garantir vitória.”

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputada Estadual Beatriz Cerqueira (PT)

Parlamentares como Lohanna (PV), Ana Paula Siqueira (Rede), Andréia de Jesus (PT), Professor Cleiton (PV) também reforçaram que o projeto de Zema é um ataque direto à democracia e aos direitos do povo mineiro.

“Está muito claro o que está acontecendo aqui — só não enxerga quem não quer. Uma pesquisa recente da Rádio Itatiaia mostrou que 66% dos mineiros entendem que a decisão sobre privatizar ou não a Copasa deve ser do povo mineiro, e não apenas de deputados, senadores ou do governador Romeu Zema. É inadmissível que integrantes do partido Novo, que perderam a eleição, estejam ocupando cargos na Copasa enquanto falam mal da própria empresa.”

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputada Estadual Lohanna (PV)

“Serviços básicos e essenciais como água, energia elétrica e saneamento não podem ser privatizados. Temos exemplos recentes, como em Ouro Preto, onde a privatização da água trouxe aumento nas contas, falta de atendimento e desespero da população. A Copasa não é de deputados nem do governo, é do povo, e não aceitaremos que se retire da população o direito de decidir sobre nosso patrimônio. O referendo, criado nos anos 2000, existe para proteger esses direitos, e qualquer tentativa de alterá-lo para atender interesses privados não será aceita pelo nosso bloco Democracia e Luta e pelo povo de Minas Gerais.”

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputada Estadual Ana Paula Siqueira (Rede)

“A Copasa não pode ser privatizada: a água é um bem público, e é o trabalho da população que sustenta salários e lucros. Infelizmente, o governo vem tentando influenciar o povo contra a empresa, mas não podemos desistir. A Copasa precisa chegar às comunidades quilombolas, aos povos indígenas e às favelas, onde crianças ainda morrem por falta de saneamento. Estamos lutando pela vida e pelo direito dos trabalhadores a um futuro melhor.”

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputada Estadual Andreia de Jesus (PT)

“Há quatro projetos nesta Casa que abrem caminho para a privatização da Copasa: retiram o referendo popular, autorizam a venda, enfraquecem a agência reguladora e preparam o fatiamento da empresa. Isso vai deixar as cidades menores desassistidas, porque a Copasa é pública e pratica tarifa social. O governo esconde o valor real da companhia e quer vender o que é do povo, sem transparência. Nós, com coerência e princípios, dizemos não à privatização.”

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Deputado Estadual Professor Cleiton (PV)

O deputado Ricardo Campos (PT) também criticou a tentativa de privatizar a Copasa, lembrando que milhares de famílias mineiras ainda vivem sem acesso à água potável e que o saneamento é um direito, não um produto.

“Água não é mercadoria, é um direito garantido pela Constituição. É um absurdo que, em pleno século 21, apenas 42% do esgoto do nosso estado seja tratado. O que queremos é uma vida melhor para todos, e isso não se alcança com a privatização dos serviços públicos. Por isso, o nosso voto é não à privatização.”

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputado Estadual Ricardo Campos (PT)

O deputado Celinho Sintrocel (PcdoB) reafirmou sobre os interesses da privatização.

“A privatização não ajuda nem a população e nem os servidores, ajuda só os que têm a ganância pelo lucro”.

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputado Estadual Celinho Sintrocel (PcdoB)

O deputado Doutor Jean (PT) apoiou a presença dos trabalhadores e defendeu o fortalecimento do movimento contra a privatização da Copasa.

“Precisamos da união de todos os trabalhadores e servidores públicos de Minas Gerais para defender o patrimônio público, como a Copasa, a Cemig, a saúde e a educação. A privatização da Copasa não afeta apenas uma empresa; é uma ameaça aos serviços públicos e aos direitos do povo. Cada cidadão, inclusive cada criança que nasce, tem uma cota dessa empresa. Por isso, é fundamental que saíamos às ruas, usando megafones, visitando escolas e casas, conscientizando a população e mostrando que a Copasa é do povo. Só assim podemos impedir que tirem nossa voz e vendam nosso patrimônio.”

Trabalhadores lutam contra mais uma tentativa de aceleração da privatização da Copasa por parte do governo Zema

Deputado Estadual Dr Jean Freire (PT)

Sindicalistas rebatem mentiras do governo

Durante a audiência, lideranças sindicais desmontaram o discurso do governo. O coordenador-geral do Sindieletro-MG, Emerson Andrada Leite, questionou: “É importante que o governo aponte onde a privatização do saneamento deu certo, onde a população teve acesso a uma água mais limpa e um serviço de qualidade. Isso nunca aconteceu.”

O presidente do Sindágua-MG, Eduardo Pereira, foi enfático ao denunciar a contradição do governo: enquanto Zema fala em “falta de recursos”, o presidente da própria Copasa anunciou R$ 17 bilhões em investimentos até 2029. “De qual Copasa estamos falando? A que tem lucro e investimentos ou a que o governo quer vender a qualquer custo?”, questionou.

Sérgio Nobre, presidente nacional da CUT, afirmou ter acompanhado outros processos de privatização pelo País e alertou que a privatização trará demissões e rebaixamento de salários. “Não cometam o crime que cometeram com a Sabesp”, disse, lembrando o caso de São Paulo, onde o serviço piorou após a venda da estatal.

Privatização ameaça tarifas e empregos

Experiências em outros estados mostram que a privatização do saneamento resulta em tarifas mais caras, piora nos serviços e exclusão de comunidades pobres. Em Ouro Preto, sob gestão privada, aumentaram as reclamações e os cortes de água; no Rio de Janeiro, a venda da Cedae reduziu o tratamento de esgoto; em Manaus, mesmo após 20 anos de privatização, 80% da população ainda não tem esgoto adequado. O que vemos são tarifas mais caras, demissões, queda na qualidade e o aumento da exclusão.

Segundo o Sindágua-MG, o governo Zema vem promovendo um desmonte silencioso da empresa, reduzindo o quadro de funcionários e enfraquecendo a prestação de serviços para justificar a venda. “A Copasa poderia resolver os problemas de saneamento em todo o estado, mas está sendo desmontada”, afirmou Wagner Xavier, dirigente sindical.

Copasa é patrimônio do povo mineiro

Criada em 1963, a Copasa atende 11,5 milhões de mineiros em mais de 630 municípios, levando água tratada a 99% da população atendida e esgoto a 75%, índices superiores aos exigidos pelo Marco Legal do Saneamento. É uma empresa lucrativa e estratégica, que distribuiu R$ 752 milhões em dividendos apenas em 2024.

Para o presidente do Sindágua, Eduardo Pereira, a empresa cumpre uma função social essencial: “Das 25 cidades com menor IDH em Minas, a Copasa está em todas. Privatizar é colocar o lucro acima da vida”. Ele ainda reforça que a privatização significaria um retrocesso social. “A lógica da empresa privada é o lucro. Em regiões como o Vale do Jequitinhonha, o custo de operação é alto e o retorno é baixo. Por isso, o privado não entra. É o Estado que garante o direito à água”, afirma.

Greve por tempo indeterminado

Após a audiência, os trabalhadores da Copasa aprovaram greve por tempo indeterminado em protesto contra a PEC 24/23. A mobilização segue nas ruas e na ALMG, com apoio de sindicatos, movimentos populares e parlamentares da oposição.

Para os trabalhadores do setor, o debate central não é apenas sobre vender ou não a Copasa, mas sobre como garantir que o acesso à água e ao saneamento seja tratado como direito social, e não como mercadoria.

Enquanto o governo de Romeu Zema acelera sua tentativa de vender o patrimônio público mineiro, cresce o movimento de resistência que afirma: água não é mercadoria — é direito.

Leia mais: Dia do Servidor Público é marcado por abandono e desmonte sob o governo Zema

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