Servidores da Empresa Mineira de Comunicação relatam assédio, censura e favorecimento ao governo de Romeu Zema

A Empresa Mineira de Comunicação (EMC), responsável pela TV Minas e pela Rádio Inconfidência, foi denunciada por jornalistas e servidores efetivos na Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Os trabalhadores relataram censura, assédio moral e uso político das emissoras públicas em benefício do governador Romeu Zema (Novo) e de seu partido.
Segundo as denúncias, as interferências teriam começado em 2019, com o início do primeiro mandato de Zema, e se intensificado após a reforma administrativa de 2023, quando as emissoras foram transferidas da Secretaria de Cultura para a Secretaria de Comunicação — movimento interpretado como estratégia para ampliar o controle político sobre a programação.
A presidente do Sindicato dos Jornalistas, Lina Patrícia Laredo, afirmou que o desmonte dos concursos públicos foi o primeiro passo para fragilizar a resistência dos servidores. Ela denunciou que a EMC tenta derrubar uma liminar que, desde 2004, impede a terceirização nas atividades-fim da empresa. Mesmo sem decisão judicial, já haveria contratados em cargos fictícios atuando na produção de conteúdo.
Ainda conforme Lina Laredo, o Programa de Demissão Voluntária (PDV) e as demissões arbitrárias reduziram o número de servidores efetivos — justamente aqueles com estabilidade e, portanto, mais capacidade de resistir a interferências políticas. Os que permaneceram relatam perseguições, assédio e adoecimento mental.
Assédio e censura como ferramentas de controle
A jornalista Waleska Falci relatou ter sido vítima de assédio no trabalho, o que a levou ao afastamento médico por oito meses. Ao retornar, foi retirada dos cinco programas que apresentava, permanecendo apenas em um horário de madrugada. A situação, segundo ela, a deixou ociosa e simboliza o esvaziamento das funções de jornalistas que não se alinham à linha editorial imposta.
A servidora Brenda Marques Pena denunciou que pautas chegam às redações com recomendações diretas do governo estadual, inclusive indicando fontes e enquadramentos favoráveis ao Partido Novo. Já Márcia Helena Bueno classificou parte do conteúdo veiculado como “pautas publicitárias não pagas”, por promover o governo sem espaço para o contraditório. Pautas críticas, como as de rebeliões em presídios, estariam sendo vetadas.
Esvaziamento de instâncias de fiscalização
Outro ponto das denúncias é o esvaziamento dos órgãos internos que deveriam zelar pela transparência e pela qualidade da programação. Ex-presidente da Comissão Editorial (2023–2024), Waleska Falci informou que o colegiado, antes responsável por avaliar novos programas com base em critérios técnicos, foi paralisado.
O Conselho Curador também estaria inoperante: segundo Waleska, as reuniões diminuíram drasticamente e as atas deixaram de ser publicadas, sendo a última datada de 2023 — o que contraria as normas de transparência da própria empresa.
Para o deputado Professor Cleiton (PV), autor do requerimento que originou a audiência realizada na Comissão de Cultura da Assembleia de Minas, no dia 09/10, a retirada da EMC da Secretaria de Cultura e sua incorporação à Secretaria de Comunicação em 2023 consolidaram o caminho para o aparelhamento político das emissoras públicas.
O parlamentar lembrou que a mudança administrativa promovida por Zema em 2023 — transferindo as emissoras da Cultura para a Comunicação — foi decisiva para consolidar o aparelhamento. As rádios e TVs públicas, antes voltadas à diversidade cultural e ao interesse coletivo, passaram a operar sob a lógica da propaganda de governo. E deixou o questionamento:
“Estamos diante de improbidade administrativa, entre outras denúncias. Temos inquéritos abertos no Minsitário Público do Trabalho, com mais de 50 casos de denúncia de assédio moral. Lembrando que tudo isso foi avisado pela Comissão quando da reforma adminsitrativa”.

Deputado Estadual Professor Cleiton (PV)
Oposição cobra apuração
O deputado Doutor Jean Freire (PT) exibiu exemplos de programas e apontou mudanças simbólicas, como a substituição de microfones com a marca da TV Minas por outros na cor laranja, associada ao Partido Novo (gesto, aparentemente simples, sintetiza o processo de apropriação partidária da comunicação pública em Minas). Ele e o deputado Leleco Pimentel (PT) defenderam a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na ALMG e uma representação no Tribunal Eleitoral para apurar o uso da máquina pública em benefício do governo Zema e de seu partido.
Comunicação pública não é palanque político
As denúncias revelam um projeto claro de silenciamento e controle. O que deveria ser um espaço de pluralidade, informação e cultura, está sendo transformado em vitrine partidária. O governo Zema, ao aparelhar a Empresa Mineira de Comunicação, ataca diretamente o direito da população mineira a uma mídia pública livre, diversa e comprometida com o interesse coletivo.
A luta dos jornalistas e servidores da EMC é também a luta em defesa da democracia, da liberdade de imprensa e do uso ético dos meios públicos de comunicação. Diante das tentativas de censura e perseguição, é dever do Parlamento e da sociedade exigir transparência, apuração e o fim imediato do aparelhamento político da TV Minas e da Rádio Inconfidência.




