
Parlamentares da oposição protocolaram representações contra o governador Romeu Zema (Novo) por uso de avião oficial do Estado em recorrentes compromissos partidários e atividades de pré-campanha eleitoral. As denúncias apontam para possível improbidade administrativa, desvio de finalidade e abuso de poder econômico, em um contexto de gastos recordes com combustível aeronáutico enquanto serviços públicos essenciais em Minas Gerais enfrentam cortes e sucateamento.
As deputadas estaduais Bella Gonçalves (Psol) e Leninha (PT) acionaram, no dia 19/01/2026, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) para que investigue a utilização de aviões do governo por Zema em eventos políticos fora do estado. No mesmo dia, a deputada Andréia de Jesus (PT) apresentou notícia-crime à Procuradoria Regional Eleitoral, solicitando apuração do uso da estrutura pública estadual para fins eleitorais.
As representações têm como base reportagem do jornal O Globo, que revelou gastos recordes do governador com combustível de aviação. Somente em 2025, as despesas chegaram a quase R$ 1,5 milhão. O salto ocorre justamente no período em que Zema passou a intensificar sua agenda nacional, após se lançar pré-candidato ao Palácio do Planalto. Os valores superam, inclusive, os registrados em 2022, também ano eleitoral, quando o gasto foi de aproximadamente R$ 1,4 milhão, período em que tal montante já configurava indício de uso abusivo da máquina pública.
Segundo as parlamentares, aeronaves do Estado foram utilizadas para deslocamentos que viabilizaram a presença do governador em encontros do Partido Novo e em eventos de caráter promocional e político, como a Festa do Peão de Barretos e o Festival de Moda em Itu, além de compromissos em diversas cidades fora de Minas Gerais. A denúncia sugere que o uso da estrutura estatal ultrapassa a pré-campanha: Zema estaria instrumentalizando a máquina pública mineira para também alavancar o projeto eleitoral do Partido Novo pelo país.
Na representação encaminhada ao TCE-MG, a deputada Bella Gonçalves pede “a instauração de procedimento de apuração para verificar a legalidade, legitimidade, economicidade e a finalidade dos gastos públicos relacionados ao uso de aeronaves oficiais pelo governador do Estado”. O documento também solicita que, caso sejam identificados indícios de repercussão eleitoral, o tribunal comunique o Ministério Público Eleitoral para adoção das medidas cabíveis.
“Enquanto Minas Gerais corta combustível de viaturas da polícia civil, Zema usa o jatinho do gabinete para rodar o Brasil fazendo pré-campanha antecipada para a presidência. Uma candidatura fajuta e usando dinheiro do povo. E, se não bastasse, usando alianças com empresas ligadas ao escândalo da Faria Lima e o PCC. É para acabar, né?”, criticou a deputada Bella Gonçalves.
A empresa fornecedora de combustível de aviação utilizado pelo governo, a Rede Sol Fuel Distribuidora, de Ribeirão Preto, que faturou cerca de R$ 1,5 milhão com as viagens de Zema, foi alvo de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal em agosto do ano passado.
A deputada Leninha também assina a denúncia junto ao TCE-MG, solicitando a abertura de procedimento de fiscalização com base nos princípios constitucionais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, previstos no artigo 37 da Constituição Federal. Para ela, é necessário apurar se houve desvio de finalidade no uso das aeronaves e eventual dano ao erário.
“A investigação é uma questão de transparência e respeito ao dinheiro público, que não pode ser usado como ferramenta de promoção pessoal ou política. É nosso dever fiscalizar e garantir que a gestão dos recursos públicos esteja sempre pautada no interesse da população mineira e na lisura do processo democrático”, destacou Leninha.
Já a deputada Andréia de Jesus reforçou a incoerência do discurso de austeridade do governo Zema. “Em Minas Gerais não tem combustível pra viatura, mas para fazer campanha com o avião oficial, tem”, criticou a parlamentar.
Aerozema: mais voos, menos governo
A matéria do jornal O Globo cita episódio ocorrido em 30 de outubro, quando Zema teria deixado antecipadamente uma reunião no Rio de Janeiro para seguir a Campinas (SP), onde participou de um encontro partidário de apresentação de pré-candidaturas para 2026. Segundo os registros do Portal da Transparência, o deslocamento foi realizado em voo oficial custeado pelo governo de Minas Gerais.
Desde agosto do ano passado, quando anunciou sua pré-candidatura à Presidência, o número de viagens e o tempo de voo em aeronaves oficiais aumentaram significativamente. Foram 198 horas de voo, contra 186 em 2024, um crescimento de 6,4%. Com pouca projeção nacional, Zema passou a circular por cidades fora de Minas, como Porto Alegre, Curitiba, Goiânia, Cuiabá, além de constantes agendas no Rio de Janeiro, São Paulo e no interior paulista.
Enquanto isso, Minas Gerais segue abandonada. Serviços essenciais estão sucateados, a saúde pública enfrenta um cenário de colapso, as estradas cada vez mais esburacadas, a violência aumenta e a dívida do Estado dobrou. Em vez de governar, Zema parece mais preocupado em usar o Estado como trampolim político. A realidade é que ele virou as costas para Minas, que hoje não tem governador.
Matéria elaborada com informações de O Globo, Brasil de Fato MG e G1.
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