Entre discursos de eficiência e viagens pelo país, Zema deixa uma Polícia Civil com 6.455 servidores a menos, salários defasados e uma categoria que denuncia abandono e silêncio do governo

Enquanto o governador Romeu Zema (Novo) bate recorde de gastos com combustível de aviação e intensifica sua agenda nacional em pré-campanha, a segurança pública de Minas Gerais enfrenta um cenário de colapso. Com déficit de servidores na Polícia Civil, cortes orçamentários e denúncias de sobrecarga e adoecimento entre os agentes, Zema prioriza a construção de uma imagem de “eficiência” fora do estado enquanto a estrutura responsável por investigar crimes e enfrentar facções criminosas opera muito abaixo do previsto em lei.
Levantamento com base em dados do Portal da Transparência revela que a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) acumula um déficit total de 6.455 servidores, sendo 1.013 escrivães e 5.442 investigadores. O número representa uma defasagem de 45,5% em relação ao efetivo previsto na Lei Complementar nº 129/2013, que estabelece 11.301 cargos de investigador e 2.890 de escrivão. Atualmente, a corporação conta com 5.859 investigadores e 1.877 escrivães em atividade, quantitativo considerado insuficiente para atender os 853 municípios mineiros.

A carência de pessoal coloca a corporação como a mais afetada entre as forças de segurança do estado. Sindicatos denunciam que a sobrecarga compromete investigações e prejudica o enfrentamento ao avanço das facções criminosas em Minas.
Baixas sem reposição
O último concurso para investigador, realizado no final de 2024, prevê a nomeação de apenas 165 aprovados, quantidade considerada insuficiente diante do déficit da corporação. Entre abril e novembro de 2024, período que abrange o lançamento do edital e os meses seguintes, 157 investigadores deixaram a ativa. Desde a solicitação oficial de recomposição do efetivo, já foram registradas 286 baixas por diferentes motivos, mostrando que o número de nomeações previstas é claramente insuficiente para suprir as necessidades da Polícia Civil.
O presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil de Minas Gerais (Sindpol-MG), Wemerson Silva de Oliveira, avalia que a nomeação prevista não chega a 2% do déficit total. “Quem sempre coibiu as facções, que prendeu chefões, que bloqueou contas bancárias, apreendeu dinheiro, é a Polícia Civil, por meio das investigações. A nomeação não supre nem 2% do déficit que a gente tem. Isso é muito complicado. E quem perde isso é o cidadão, com os crimes aumentando”, afirmou Silva.
Segundo matéria do jornal Estado de Minas, em setembro de 2023, a chefia da Polícia Civil enviou ofício à Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag) solicitando a abertura imediata de concurso para 1.012 investigadores, classificada como medida “imprescindível” para melhorar a prestação de segurança pública. No entanto, o edital publicado meses depois contemplou apenas 165 vagas.
O certame contou com 47.081 inscritos, dos quais 8.053 foram aprovados na prova objetiva. Mesmo assim, o governo estadual manteve a previsão de aproveitamento restrito aos 165 candidatos iniciais. O concurso já ultrapassou R$ 8 milhões em custos, o que levanta questionamentos sobre o princípio da economicidade, diante do baixo número de nomeações previstas.
Desvalorização: o quarto pior salário do país
O presidente do Sindicato dos Escrivães e Oficiais Investigadores de Polícia Civil de Minas Gerais (Sindep-MG), Marcelo Horta, afirma que a categoria acumulou perdas inflacionárias próximas de 45% na última década, percentual semelhante ao déficit de efetivo.
“O policial está trabalhando dobrado e recebendo a metade. Hoje, nós estamos tendo praticamente um policial trabalhando para dois. O principal mal que isso causa é o sacrifício e o adoecimento (do servidor). Ano passado nós perdemos mais policiais por autoextermínio do que no combate com criminosos”, destacou Horta.
Já levantamento do Sindpol aponta que as perdas inflacionárias acumuladas da categoria já chegam a 50%. “O Governo Zema gosta de falar em “gestão eficiente” e “contas no azul”. Mas quem pagou essa conta? Enquanto o Executivo ostenta números positivos para o mercado e gasta R$ 1,5 milhão em combustível de avião para viagens políticas, o servidor da segurança pública amarga o quarto pior salário do país.”, afirma o Sindicato em matéria publicada no site da entidade.
Sobrecarga e adoecimento
Dados do Mapa da Segurança Pública de 2025 mostram que Minas Gerais ocupa o terceiro lugar no país em suicídios de agentes de segurança. Com 16 casos em 2024, o estado ficou atrás apenas de São Paulo (17) e Rio de Janeiro (18).
Esses números revelam o impacto direto da ausência de políticas públicas consistentes e da falta de investimento na valorização e no suporte às forças de segurança durante a gestão Zema. A crise não se limita à violência urbana: atinge a vida e a saúde mental de quem atua na linha de frente.
Estrita legalidade e protestos
Diante da insatisfação crescente, a Polícia Civil de Minas Gerais iniciou, em 28 de outubro do ano passado, a operação chamada “estrita legalidade”, na qual os agentes passaram a cumprir apenas as atribuições estritamente previstas em lei. A medida é uma forma de protesto contra a falta de valorização e as precárias condições de trabalho enfrentadas pela corporação.
A crise se estende além das limitações de função: a estrutura operacional também enfrenta sérias deficiências. Em maio de 2025, após o anúncio de um corte de R$ 1,1 bilhão no orçamento estadual, o governo limitou o abastecimento das viaturas da Polícia Civil a apenas cinco vezes por mês, prejudicando diligências e investigações, segundo o sindicato.
As necessidades básicas, porém, não se restringem ao combustível. Colete vencido, viaturas paradas e tecnologia ultrapassada revelam uma estrutura que não acompanha a realidade da segurança pública. “Segurança não se sustenta no improviso. Funciona com investimento, estrutura e valorização de quem faz o trabalho acontecer todos os dias”, alerta o Sindpol em publicação em suas redes sociais, reforçando que a precariedade é sistêmica e afeta diretamente a capacidade de proteger a população.
Falta de diálogo
A categoria também critica a ausência de diálogo com o governo Zema. Nas vésperas do Carnaval passado, forças de segurança realizaram protestos no centro de Belo Horizonte cobrando recomposição salarial e melhores condições de trabalho. À época, o Sindpol afirmou que, em seis anos de gestão, o governador não teria se reunido diretamente com a categoria. Um ano depois, a situação é a mesma.
“Até hoje fomos jogados de secretário para secretário, em um eterno ‘empurra com a barriga’”, afirma o sindicato. A entidade também denunciou ter sido bloqueada pelo governador nas redes sociais após críticas à condução da segurança pública.
“Zema não aguentou ler os comentários falando a verdade sobre a péssima gestão dele na segurança pública do estado, em especial na Polícia Civil, que é quem faz as investigações e prende os líderes das facções criminosas que estão invadindo o estado de Minas Gerais. Mas, gente, eu entendo o governador. O homem está muito ocupado, deve ser difícil sobrar tempo para governar quando se fica o tempo todo viajando de jatinho e fazendo vídeo com mentiras”, ironizou Wemerson Silva.
A discrepância entre o discurso de eficiência e a realidade enfrentada pelas forças de segurança evidencia uma política pública fragilizada. Com déficit histórico de servidores, cortes orçamentários e indicadores alarmantes de violência e adoecimento, a Polícia Civil de Minas Gerais atravessa um momento crítico que exige ação concreta do governo estadual. No entanto, o que se vê é um governador mais preocupado com a própria pré-campanha à Presidência, gastando recursos públicos para projetar uma imagem nacional, enquanto a segurança no estado permanece em colapso.
Matéria elaborada com informações do Sindpol e jornal Estado de Minas.
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