
No papel, um avanço tecnológico. No discurso, a promessa de uma gestão “técnica e eficiente”. Mas, na prática, o novo Portal da Transparência de Minas Gerais, lançado nesta segunda-feira (9/3/26), desmente o próprio nome. Ao declarar que não revelará quais empresas são beneficiadas com isenções fiscais no estado, o governador Romeu Zema (Novo) não apenas ignora o direito do cidadão à informação, como também ergue um muro de proteção sobre um montante que pode superar os R$ 120 bilhões até o fim de seu mandato.
Zema, que construiu sua carreira política criticando a “caixa-preta” da velha política e pregando a transparência total como remédio contra a corrupção, recorre a metáforas convenientes para justificar o sigilo. Ao classificar os nomes dos beneficiários como um “segredo industrial”, o governador trata o dinheiro público como se fosse um ativo de sua própria empresa, e não o suor e o patrimônio coletivo de milhões de mineiros que pagam a conta.
Estado “máximo” para os amigos
Reportagem do jornal Estado de Minas mostrou que, até o fim deste ano, o governo Zema terá deixado de arrecadar mais de R$ 120 bilhões devido a renúncias fiscais, valor equivalente a cerca de dois terços do passivo estadual com a União, estimado em cerca de 180 bilhões. O montante resulta da soma das desonerações já efetivadas desde 2019, primeiro ano da gestão Zema, e das projeções até 2026.
O jornal também aponta que, desde que tomou posse, a desoneração saltou de R$ 6,1 bilhões durante o primeiro ano do governo Zema para uma previsão de R$ 25,2 bilhões. O histórico indica, ainda, um padrão de expansão acima do previsto, conforme dados levantados por meio do Portal da Transparência da Secretaria de Estado de Fazenda (SEF-MG).
O leão de Brasília e o “gatinho” do sigilo
A contradição ganha contornos de hipocrisia quando lembramos que o governador é um dos críticos mais ferozes da falta de transparência quando decide atacar – geralmente de forma leviana – o Governo Federal. Para Brasília, Zema exige clareza e rigidez fiscal. Para os grandes empresários amigos que operam em Minas sob regimes especiais, o governador oferece o manto do anonimato.
Como bem pontuou a deputada estadual Lohanna (PV), Zema comporta-se como um “leão” para cobrar os outros, mas torna-se um “gatinho manhoso” quando o assunto é abrir as contas de casa.
A Conta que não fecha
Enquanto o cidadão comum sente o peso do IPVA e o funcionalismo público amarga anos sem recomposição salarial digna sob a justificativa da crise financeira, bilhões de reais escorrem pelo ralo das renúncias fiscais sem qualquer fiscalização social.
O governo alega não ter dinheiro para pagar o que deve e para investir no básico, mas abre mão de receitas bilionárias em favor de empresas cujos nomes ele se recusa a pronunciar.
Transparência não é favor, é obrigação!
Um Portal da Transparência que escolhe o que mostrar não é uma ferramenta de controle social; é uma peça de propaganda. O “segredo industrial” de Zema custa caro aos cofres de Minas. E enquanto o governador mantiver os beneficiários sob as sombras, o novo portal será apenas uma vitrine bonita para um estoque de privilégios que ninguém pode auditar.
Leia também:
Zema nega recomposição salarial a servidores e Educação deflagra greve
Tragédia anunciada: o corte de Zema que deixou Minas exposta às chuvas




